domingo, 18 de outubro de 2009

18 de outubro - Dia do Médico

Há maus e bons profissionais em todos os trabalhos desenvolvidos pelos seres humanos. Não seria diferente na Medicina. Entendo que a profissão é uma das formas que o ser humano revela o seu interior, tanto em suas características de personalidade e caráter, quanto em sua visão social, política e filosófica frente ao mundo em que vive. Ao longo da segunda metade do século passado e início do atual, a Medicina, ou melhor, os médicos, perderam o status que tinham, desceram as escadas sociais e hoje a maioria vive uma fase de “proletarização”, recebendo salários aviltantes e indignos, sendo por isto obrigada a ter mais de um emprego e plantões para manter uma vida digna. Mas as responsabilidades que eles conduzem continuam as mesmas, pois lidam com o que há de mais delicado e sagrado, a vida humana. São-lhes exigidas atitudes de sacerdotes, de seres boníssimos, simpáticos, de paciência e conhecimento infinitos, e que nunca errem. No entanto, quase ninguém olha deles o lado humano; as horas longe da família e dos amigos; a dedicação que precisam ter nos constantes estudos de atualização; a falta de tempo para os cuidados consigo mesmos e as doenças que estão expostos por terem um ofício tão estressante. Algumas vezes o médico encontra a incompreensão também dentro de sua própria família, que não aceita as interrupções dos raros momentos que está junta no lazer, nas refeições, no descanso, o que compromete mais ainda a sua saúde e qualidade de vida. Portanto, com esta reflexão, aproveito este dia para buscar uma renovação e um fortalecimento na procura do melhor no exercício desta nobre profissão.

Gilvan Almeida


Por que 18 de outubro é o "dia dos médicos"


O dia 18 de outubro foi escolhido como "dia dos médicos" por ser o dia consagrado pela Igreja a São Lucas. Como se sabe, Lucas foi um dos quatro evangelistas do Novo Testamento. Seu evangelho é o terceiro em ordem cronológica; os dois que o precederam foram escritos pelos apóstolos Mateus e Marcos.
Lucas não conviveu pessoalmente com Jesus e por isso a sua narrativa é baseada em depoimentos de pessoas que testemunharam a vida e a morte de Jesus. Além do evangelho, é autor do "Ato dos Apóstolos", que complementa o evangelho.
Segundo a tradição, São Lucas era médico, além de pintor, músico e historiador, e teria estudado medicina em Antióquia. Possuindo maior cultura que os outros evangelistas, seu evangelho utiliza uma linguagem mais aprimorada que a dos outros evangelistas, o que revela seu perfeito domínio do idioma grego.
São Lucas não era hebreu e sim gentio, como era chamado todo aquele que não professava a religião judaica. Não há dados precisos sobre a vida de S. Lucas. Segundo a tradição era natural de Antióquia, cidade situada em território hoje pertencente à Síria e que, na época, era um dos mais importantes centros da civilização helênica na Ásia Menor. Viveu no século I d.C., desconhecendo-se a data do seu nascimento, assim como de sua morte.
Há incerteza, igualmente, sobre as circunstâncias de sua morte; segundo alguns teria sido martirizado, vítima da perseguição dos romanos ao cristianismo; segundo outros morreu de morte natural em idade avançada. Tampouco se sabe ao certo onde foi sepultado e onde repousam seus restos mortais. Na versão mais provável e aceita pela Igreja Católica, seus despojos encontram-se em Pádua, na Itália, onde há um jazigo com o seu nome, que é visitado pelos peregrinos. Não há provas documentais, porém há provas indiretas de sua condição de médico. A principal delas nos foi legada por São Paulo, na epístola aos colossenses, quando se refere a "Lucas, o amado médico" (4.14). Foi grande amigo de São Paulo e, juntos, difundiram os ensinamentos de Jesus entre os gentios.
Outra prova indireta da sua condição de médico consiste na terminologia empregada por Lucas em seus escritos. Em certas passagens, utiliza palavras que indicam sua familiaridade com a linguagem médica de seu tempo. Este fato tem sido objeto de estudos críticos comparativos entre os textos evangélicos de Mateus, Marcos e Lucas, e é apontado como relevante na comprovação de que Lucas era realmente médico. Dentre estes estudos, gostaríamos de citar o de Dircks, que contém um glossário das palavras de interesse médico encontradas no Novo Testamento.
A vida de São Lucas, como evangelista e como médico, foi tema de um romance histórico muito difundido, intitulado "Médico de homens e de almas", de autoria da escritora Taylor Caldwell. Embora se trate de uma obra de ficção, a mesma muito tem contribuído para a consagração da personalidade e da obra de Sao Lucas.
A escolha de São Lucas como patrono dos médicos nos países que professam o cristianismo é bem antiga. Eurico Branco Ribeiro, renomado professor de cirurgia e fundador do Sanatório S. Lucas, em São Paulo, é autor de uma obra fundamental sobre São Lucas, em quatro volumes, totalizando 685 páginas, fruto de investigações pessoais e rica fonte de informações sobre o patrono dos médicos. Nesta obra, intitulada "Médico, pintor e santo", o autor refere que, já em 1463, a Universidade de Pádua iniciava o ano letivo em 18 de outubro, em homenagem a São Lucas, proclamado patrono do "Colégio dos filósofos e dos médicos".
A escolha de São Lucas como patrono dos médicos e do dia 18 de outubro como "dia dos médicos", é comum a muitos países, dentre os quais Portugal, França, Espanha, Itália, Bélgica, Polônia, Inglaterra, Argentina, Canadá e Estados Unidos. No Brasil acha-se definitivamente consagrado o dia 18 de outubro como "dia dos médicos".


Referências bibliográficas
1. RIBEIRO, E.B. - Médico, pintor e santo. São Paulo, São Paulo Editora, 1970.2. STERPELLONE, L. - Os santos e a medicina (trad.) São Paulo, Paulus, 1998, p. 13-20.3. FREY, E.F. - Saints in medical history. Clio Med. 14:35-70, 1979.4. DIRCKS, J.H. - Scientific and medical terms and references in the writings of St. Luke. Am. J. Dermatopathol. 5:491-499, 1983.5. CALDWELL, T. - Médico de homens e de almas.(trad.). 31. ed. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2002.
Autor: Joffre M. de Rezende - 24/05/2003

e-mail: jmrezende@cultura.com.br


http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende


Tópicos Selecionados de História da Medicina e Linguagem Médica


Artigos, notas e comentários

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Fome

A notícia abaixo teve o poder de me fazer refletir a respeito da vida neste planeta, que para uns (minoria) é um paraíso e, para outros (maioria), é o próprio inferno. Não é fácil constatar e ver que podemos fazer tão pouco para modificar a estrutura social, política e econômica mundial, sistema em que “é normal” seres humanos lucrarem com a fome, a doença, a droga, a guerra, o analfabetismo, o desemprego, e outros tipos de escravidão humana. Esta foto ao lado causa um impacto e mexe com minha condição humana, pois é doloroso ver alguém com fome e, pior ainda, uma criança morrer de fome. Traduzo a imagem como "a fome matando a esperança e a morte, pacientemente, à espreita, aguardando o desfecho".

Gilvan Almeida

Número de famintos no mundo passa de 1 bilhão em 2009, diz ONU

Da Reuters, em Roma

Uma combinação da crise alimentar e da desaceleração econômica global fez com que mais de 1 bilhão de pessoas passasse fome em 2009, informaram agências da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta quarta-feira, confirmando a perspectiva pessimista divulgada neste ano.
A Organização para a Agricultura e Alimentos (FAO, na sigla em inglês) e o Programa Mundial para a Alimentação (WFP, na sigla em inglês) disseram que 1,02 bilhão de pessoas --cerca de 100 milhões a mais do que no ano passado-- estão subnutridas em 2009, maior número em décadas."A alta no número de pessoas famintas é intolerável", disse o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, durante a divulgação do relatório anual sobre a fome no mundo."Temos os meios econômicos e técnicos para fazer a fome desaparecer, o que está faltando é uma vontade política mais forte para erradicar a fome para sempre", disse.O aumento no número de famintos não é resultado de problemas na produção agrícola, mas sim dos altos preços dos alimentos --particularmente em países em desenvolvimento-- menor renda e perda de empregos.Mesmo antes da recente crise alimentar e da recessão econômica, o número de desnutridos cresceu constantemente por uma década, revertendo o progresso obtido na década de 1980 e no início da década de 1990.
No ano passado o WFP elevou para 5 bilhões de dólares o montante necessário para alimentar os pobres, num momento em que os preços dos alimentos entre 2006 e 2008 geraram protestos violentos em alguns países.
Até o momento, neste ano, a entidade recebeu 2,9 bilhões de dólares e reduziu a ração de alimentos e suas operações em lugares como Quênia e Bangladesh.
Países africanos lideram Índice Global da Fome
Os países africanos continuam à frente no Índice Global da Fome 2009 apresentado hoje, em Berlim, pela alemã Welthungerhilfe e pelo Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares (IFPRI, em inglês), que destaca que as mulheres são as que mais sofrem com a desnutrição e a pobreza.
Leia mais: http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2009/10/14/ult1766u33709.jhtm

(Reportagem de Silvia Aloisi)

sábado, 10 de outubro de 2009

Nobel da Paz ???

Cada vez mais compreendo e constato que grande parte da história da humanidade é feita de farsas. A frase “ Em uma guerra, a primeira vítima é sempre a verdade.”, atribuída ao senador estadunidense Hiram Johnson, me abriu mais ainda os olhos quanto a isso. Desde os primórdios, a humanidade vive em guerra, e o capitalismo precisa de guerras para se manter, então, olhando por este prisma, não se sabe mais, o que é mentira e o que é verdade, o que é errado e o que é certo, quem é o bandido e quem é o mocinho.
Ontem, com perplexidade, recebi a notícia que o presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, havia sido laureado com o prêmio Nobel da Paz. Fica difícil entender que o homem que há poucos meses pediu ao congresso estadunidense 200 bilhões de dólares para a manutenção da guerra, em 2010, em diversos países – leia texto abaixo – receba tal honra e passe a ocupar na história mundial um lugar junto ao Dalai Lama, a Nelson Mandela, à Organização Médicos Sem Fronteiras, ao bispo sul-africano Desmond Tutu, ao escritor argentino Adolfo Esquivel, também ganhadores deste prêmio.

Gilvan Almeida

Obama pedirá em orçamento US$ 200 bi para guerras dos EUA
26 de fevereiro de 2009

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pedirá mais de US$ 200 bilhões para os gastos das guerras mantidas pelo país neste ano, segundo informações divulgadas pela imprensa nesta quinta-feira, 26. O governo Obama deve apresentar nesta tarde a proposta de Orçamento para o ano fiscal de 2010, que segundo a imprensa, prevê um déficit de US$ 1,75 trilhões neste ano, o maior desde a Segunda Guerra Mundial.
Obama espera que os gastos dos Estados Unidos com as guerras no Iraque e no Afeganistão cheguem a US$ 140 bilhões para o atual ano fiscal, que termina em setembro, de acordo com uma importante autoridade do governo. Parte desse montante (US$ 65,9 bi) já foi apropriada pelo governo de George W. Bush no ano passado. Mas a autoridade, que falou sob a condição de anonimato, disse que o governo precisará fazer um pedido adicional ao Congresso por uma verba suplementar de US$ 75 bilhões para enviar mais tropas para o conflito afegão, somando os mais de US$ 200 bi. O orçamento incluirá mais US$ 130 bilhões para guerras em 2010 e US$ 50 bilhões por ano para o restante da próxima década.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Como criar um filho saudável... apesar do seu Pediatra.

Livro: Como criar um filho saudável... apesar do seu Pediatra.
Autor: Robert Mendelsohn
Editora: Marco Zero

Este é um livro importante em minha formação profissional, especialmente em uma das especialidades médicas que pratico: a Pediatria. Prefiro a realidade desmistificada, e a Medicina, ou melhor, alguns médicos, e quem se aproveita deles – a indústria médica capitalista, alimentam este lado, colocando o conhecimento médico acadêmico atual, de forma mistificada e pretensamente infalível, acima do bem e do mal, com todo o poder para decidir padrões comportamentais, estéticos, alimentares, de sanidade física e mental e outros, como se a verdade científica não fosse mutável e fortemente sujeita a manipulações por interesses escusos. Não é um livro do currículo médico e sua leitura é simples e interessante. Leia um trecho dele a seguir.
Gilvan Almeida

Castigo não é a solução

Crianças precisam, é claro, ser orientadas na direção do comportamento responsável adulto, mas os pais não devem esperar que elas consigam isso de uma vez só. E não há nenhuma evidência convincente de que possa ser alcançado efetivamente empregando-se o velho ditado "é de pequenino que se torce o pepino". Castigo corporal em qualquer idade confunde e traumatiza a criança, pois ela não consegue entender por que a mãe e o pai que ela ama, e que supostamente a amam, passam repentinamente a ter raiva dela e lhe infligir dor física. Ela pode tornar-se insegura, ressentida e até inútil, e a conseqüência pode ser um dano psicológico. O impacto do castigo físico no desenvolvimento da criança tem sido estudado exaustivamente, e o consenso é que a violência provoca danos tanto nos pais quanto nas crianças. O castigo não ensina à criança o que fazer e consegue apenas um benefício temporário, se conseguir, em ensinar-lhe o que não fazer. Não nego que, numa ocasião, levantei a mão, com raiva, mas, na maior parte do tempo, tentei conseguir o objetivo desejado com os meus filhos através da utilização do exemplo e da transmissão de encorajamento terno e amoroso. Estou mais do que satisfeito com os resultados. Espero e creio que meus netos, da mesma maneira, raramente experimentarão castigo físico por qualquer motivo.

Fonte: http://www.cadernor.com.br/index.phpoption=com_content&view=article&id=422:bater-em-crian-covardia&catid=14:filhos&Itemid=67

sábado, 26 de setembro de 2009

Um outro 11 de setembro

Desde a minha adolescência, a partir do tempo em que passei a me interessar por política internacional, dois acontecimentos históricos marcaram de forma profunda minha consciência política e, anualmente, eu me lembrava deles com tristeza e indignação: as bombas atômicas que os Estados Unidos lançaram sobre o Japão, em 06 e 09 de agosto de 1945, e o golpe militar no Chile, armado e financiado pelo governo norte-americano, alimentado pela burguesia chilena e executado por Pinochet e seus militares, em 11 de setembro de 1973. Ambos me fazendo ver até onde vai a maldade de alguns seres humanos, e que a demonstração do poderio e da dominação imperialista não tem limites éticos, morais ou legais.
Salvador Allende, o Presidente deposto e assassinado naquele golpe, ousou sonhar, junto com os que o elegeram, em construir um Chile livre e soberano. Foi impedido porque daria mau exemplo aos outros povos.
Milhares de chilenos foram torturados e assassinados, e poucos governos fizeram qualquer sinal de preocupação ou solidariedade ao povo perseguido.
Por isso, quando anualmente nos lembrarmos dos mortos nos ataques terroristas aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, lembremo-nos também dos chilenos mortos e desaparecidos, e de sua jovem democracia assassinada em 11 de setembro de 1973.

Gilvan Almeida

sábado, 12 de setembro de 2009

Conversa sobre a inveja

Para mim a internet tem sido fonte de aprendizados, seja em pesquisas, como em conversas com amigos. Alguns registros que salvei sobre um assunto interessante, a inveja.

Gilvan Almeida

Uma amiga pergunta: Eu queria que alguém me informasse quais características, sintomas, expressões, sei lá o quê a pessoa pode perceber como a inveja se manifesta. Pelo que me consta dificilmente alguém se diz invejoso. Por favor, sem muitas delongas de conceitos formais, o momento que estou vivendo é repleto de conceitos, são eles que direcionam o conhecimento, sei disso, mas é importante não nos formatarmos num mesmo padrão, onde até as palavras são as mesmas. Mas me digam, por favor, quero entender melhor essa tal de inveja.

O que penso, sendo conciso conforme a amiga pede: Algumas filosofias espiritualistas e religiosas têm o desejo como fonte de todo o sofrimento humano. Concordo com elas.
Assim, uma forma que procuro me monitorar quanto a estar ou não sentindo inveja é vendo a quantas andam os meus desejos. Entendo, então, que na raiz da inveja está o desejo, principalmente o desejo de ter algo de alguém, ou igual ou ainda melhor que o de alguém, seja um bem material, um amigo, um amor, inteligência, êxito na vida, conhecimentos, etc.

Outra amiga opina: Outro dia recebi um e-mail de um amigo falando que estava com "inveja branca" das fotografias que mostrei da minha viagem a Nova York; achei interessante, porque ainda não tinha visto essas duas palavras juntas. Entretanto, vejo que a inveja branca é sadia, de paz e amor, enquanto a inveja no sentido literal da palavra pode ser definida como uma vontade frustrada de possuir os atributos ou qualidades de um outro ser, pois aquele que deseja tais virtudes é incapaz de alcançá-la, seja pela incompetência e limitação física, seja pela intelectual. Confesso, que tenho uma certa dificuldade de lidar com o sentimento da inveja e do ciúme, na hora não sei que medida adotar quando a pessoa está com esse sentimento comigo.
Um amigo filosofou: Ao tratarmos da inveja, ou de qualquer outro tema envolvendo sentimentos não muito nobres, devemos ter o anjo da humildade como guia, assim, admitiremos que não falamos dos outros, mas de nós mesmos, como seres imperfeitos e desequilibrados que somos. Entendo que a inveja é uma espécie de rejeição interior que sentimos por não sermos como os outros são. É uma forma de auto-punição e de cobrança interior, injusta muitas vezes, outras nem tanto, que fazemos a nós mesmos. Como diz aquela música do maluco do Raul Seixas, "é sempre mais fácil achar que a culpa é dos outros". Através da inveja, transferimos a culpa pelos nossos fracassos, na forma de vibrações negativas, para os outros. Em verdade, é sintoma da baixa auto-estima e, é ela, que semeia dentro de nós a arrogância e o egoísmo. A arma que a inveja utiliza para nos dominar é a comparação. Mas como fugir dela se vivenciamos, de forma inevitável, o processo comparativo no dia a dia? Quer a gente queira ou não a vida cotidiana é feita de comparações. Para tudo há um modelo, um padrão, um referencial. Ou será que não? Talvez, o melhor exercício seja parar de se comparar com os outros e partir para comparações internas. Compare o que você foi ontem com o que é hoje. É bem possível que, com a auto-comparação, possamos identificar falhas que são nossas, e não dos outros. Será que se compararmos nossos sentimentos e atitudes, de hoje e do passado, não estaremos patrocinando batalhas vitoriosas na guerra contra a inveja? E será também que não estaremos ampliando nossa capacidade de admirar o bom exemplo que vem das outras pessoas, transformando inveja em admiração, que é um caminho bom na busca por evolução.

Acrescentei: Há um tempo havia um adesivo de colocar em vidro de carro que dizia assim: “a inveja é a arma dos incompetentes." Encontrei estas outras frases que mostram a inveja de uma forma que também concordo. Vejo também que a inveja não é só de coisas materiais. Estas são até mais grosseiras e fáceis de serem vistas. Há a inveja de amizades, de dons/qualidades que alguém possua, de quem tem conhecimento intelectual e espiritual.

"O ciúme traduz o sentimento de propriedade, ao passo que a inveja mostra o instinto de roubo."(Autor Desconhecido)

"Inveja é o ódio da felicidade alheia, ou dor que se sente no coração por causa do sucesso alheio."(Albertano da Brescia)

"Duas são as feras que em nós produzem mais danos: uma cruel e selvagem, a inveja; outra, mansa e doméstica, a adulação. "(Juan Luis Vives)

"Ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é querer que o outro não tenha."(Zuenir Ventura)
Disse um pouco mais: Acho muito delicada (e às vezes enganosa) a percepção de achar que está sendo vítima de inveja. Já vi pessoas dizerem isto, que estavam falando dela com inveja do que ela tinha e do que ela era, e, na verdade, ela estava mesmo era se exaltando, “siachando”, como dizem. Observe que estou dizendo de uma experiência de observação e não dizendo que você está enquadrada nisto. Por isto que acho delicado, porque é algo muito difícil de avaliar com isenção e equilíbrio. Mas acho também possível perceber quando alguém está com inveja de outra, pelas palavras, pelo olhar, conforme foi colocado, e também quando é aquela “..."velha" rabugenta, perseguidora, suja, sem dentes, bafo fétido e sinistra...” facilmente vista, só que, às vezes, a inveja pode ser bela, insinuante, sutil, parecendo amiga, chega-se de mansinho para invejar e algumas vezes roubar, se apoderar, do objeto do seu desejo. Como prevenir então? Uma forma que vejo: discrição no que se é, no que se tem, no que se pode. Não fazer propaganda. Lembro do Milton Nascimento quando diz “amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração...” Aqui interpreto que ele não está dizendo para se apossar do amigo, nem esconder o amigo, nem ter ciúme do amigo, querer só para si. Ele diz para cuidarmos do amigo, sendo uma das formas através da discrição, não propagandeando aos sete mares que é o amigo daquela pessoa, de tão grande que é a amizade com ela. É sujeito despertar em alguém a inveja, especialmente nos mais carentes e de baixíssima auto-estima.

Texto de autor desconhecido: “A inveja é um dos sete pecados capitais. É considerada pecado porque uma pessoa invejosa ignora suas próprias bençãos e prioriza o status de outra pessoa no lugar do próprio crescimento espiritual. Outra expressão muito comumente usada, no dito popular, para designar a inveja é a "dor de cotovelo".

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Grandes escritores I : Fernando Pessoa

Minha mãe me ensinou a ter e a sempre cultivar a paixão pelos livros. Enquanto universitária do Curso de Letras da UFAC, ela foi me apresentando os livros que ia lendo e eu, iniciando a adolescência, ia me deixando “contagiar” pelo amor que ela tinha pela literatura. O sentimento que me envolve ao ler um bom livro gera em mim um estado semelhante a uma paixão, fico pensando, envolvido, procurando tempo para ler, saboreando cada página e deixando a mente e o coração livres para se manifestarem conforme a história me conduz. É uma espécie de amor, de prazer, onde a concentração e a entrega me transportam por viagens a lugares, povos e culturas distantes, sentimentos e memórias do que já vivi, do que aspiro viver e, até mesmo, trazendo à tona saudades não sei do quê ou de quem. É muito bom encontrar escrito algo que penso e sinto semelhante, o que muitas vezes me alivia por ver que, por mais estranho que seja, tem mais alguém que vê da mesma forma. Quando gosto de um livro tenho por hábito procurar ler os outros daquele autor. Já fiz assim com José de Alencar, José Lins do Rego, Machado de Assis, Albert Camus, Gabriel Garcia Marques, Clarice Lispector, Eça de Queiroz, Rainer Maria Rilke, Alexandre Dumas, Jorge Amado, Antônio Callado, Vitor Hugo, Agatha Cristie, Lobsang Rampa, Manoel Puig e outros.
Recentemente, li o texto Antropofagia, de Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”, que diz assim: “Para comer meus próprios semelhantes, eis-me sentado à mesa”, escreveu Augusto dos Anjos (“Eu”, 1912, Revista de Antropofagia 1). ' Eu escrevo antropofagicamente: quero que me devorem. Eu leio antropofagicamente: quero devorar aquele que escreveu. Nietzsche sentia o mesmo e disse que só amava os livros escritos com sangue. Como na Eucaristia. A eucaristia é um ritual antropofágico. “Esse pão é o meu corpo; esse vinho é o meu sangue. Comei. Bebei.” Literatura é antropofagia, o que está de acordo com a teologia do evangelho de João, que a afirma que a Palavra é igual à carne. ’ E eu, que nem me imaginava antropófago, deliciei-me ao ver que a minha tendência a “devorar” autores e suas obras também acontece com muitas outras pessoas.
Meus amores literários sempre foram por obras escritas em prosa. Não tinha paciência, sensibilidade e compreensão para escritos em verso, até me encontrar, recentemente, de forma mais intensa, com o escritor Fernando Pessoa, minha atual paixão. Falando isto a um amigo, ele me disse: “você ainda não tinha suficiente maturidade intelectual e sentimental para penetrar na alma e no coração da poesia”. Já gostava de algumas poesias dele, recitadas pela cantora Maria Betânia em alguns shows; lidas em mensagens e sites na internet e também através de um CD, A música em Pessoa, em que musicaram algumas poesias dele, e que são cantadas por Nana Caymmi, Tom Jobim, Marcos Nanini e outros. Agora, estou definitivamente conquistado. Li o livro O Eu profundo e os outros Eus e acredito ter chegado mais perto da alma e do coração do poeta, e pude sentir mais a genialidade de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Muitas vezes uma frase de 5 ou 6 palavras me fazia parar a leitura para refletir, buscar os sentimentos do autor, e também os meus, envolvidos no que ele estava querendo dizer, e entender onde, como e por quê me tocavam. Gosto de escritores que me desafiam, que me tiram da inércia de sentimentos e da mesmice intelectual, e dão um “nó” na minha compreensão, além de estilhaçar as minhas convicções e paradigmas, e Pessoa veio se unir a outros que fazem isto comigo, especialmente Kafka, Camus, Gabriel Garcia Marques, George Orwell, Erasmo de Roterdã, Machado de Assis, Clarice Lispector, Rainer Rilke, Arthur Rimbaud.
Adquiri na I Bienal da Floresta do livro e da leitura as Poesias Completas de Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, os três principais heterônimos de Fernando Pessoa, e estou agora ampliando meus conhecimentos sobre o universo deste Mestre da palavra. Deixo-os com esta poesia dele, que foi a primeira que gostei, na voz da Betânia, na década de 70, e que só recentemente soube do nome, o que me fez gostar mais ainda:

EROS E PSIQUE

Conta a lenda que dormia
uma Princesa encantada
a quem só despertaria
um Infante, que viria
de além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
vencer o mal e o bem,
antes que, já libertado,
deixasse o caminho errado
por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
se espera, dormindo espera,
sonha em morte a sua vida,
e orna-lhe a fronte esquecida,
verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
sem saber que intuito tem,
rompe o caminho fadado,
ele dela é ignorado,
ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino,
ela dormindo encantada,
ele buscando-a sem tino,
pelo processo divino
que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
tudo pela estrada fora,
e falso, ele vem seguro,
e vencendo estrada e muro,
chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
a cabeça, em maresia,
ergue a mão, e encontra hera,
e vê que ele mesmo era
a Princesa que dormia.
Fernando Pessoa – Cronologia
http://www.insite.com.br/art/pessoa/

13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa.
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa.
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de um "Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua". Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 – Aparece “Mensagem”, seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.