domingo, 13 de maio de 2012

Crônica de uma saudade

Não me despedi da minha mãe. Em abril de 2003 saí para trabalhar e, à tarde, como habitualmente fazia, ela e meu pai foram caminhar no Parque da Maternidade. Já voltando para casa, cada um com um saco de pipoca na mão, foram brutalmente atropelados por um rapaz em uma bicicleta. Meu pai sofreu algumas escoriações e ela traumatismo craniano. Nunca mais voltou para sua casa, seu lugar sagrado que tanto lutou para construir e manter.
Fui avisado e me dirigi ao Pronto-socorro, onde a encontrei em estado pré-comatoso. Percebi que ela estava balbuciando e aproximei meu ouvido da boca dela, e ouvi suas últimas palavras antes do coma: “quero voltar para casa, me leve para casa”. Dois dias depois faleceu no Fundação Hospitalar.
Não soubemos, até hoje, quem era o rapaz da bicicleta, e nem nos interessa. Já sabemos que não há acaso.
Em 09 de maio de 2009 publiquei no blog um post, onde relatei um acontecimento que vivi em casa, alguns dias após a morte dela. Denominei-o Memórias sentimentais. Reavivando o amor e a saudade que sinto, hoje republico com o título "Crônica de uma saudade".

Memórias sentimentais

Tenho muitas pastas de papelão, cheias de documentos, fotos, cartões de antigos natais e aniversários, textos, frases e tudo o que leio e considero bonito, memórias que me fazem bem aos olhos e ao coração.
De tempos em tempos abro-as, uma a uma, sem algo específico a procurar, somente pelo prazer de encontrar algo que me faça bem e relembre amigos, acontecimentos familiares, às vezes até mesmo algumas dores, e as muitas alegrias já vividas.
Minha mãe tinha caixas, dessas de sapato, lindamente forradas com papéis estrelados e floridos, onde guardava também as suas lembranças, especialmente as que lhe diziam mais ao coração: fotos dos filhos e netos.
Poucos dias após a sua trágica morte em abril de 2003 (até hoje não descobrimos quem a atropelou de bicicleta, no parque da maternidade), minha irmã e meu pai estavam organizando as roupas, as bonecas (ela tinha muitas), os sapatos e outros objetos dela, para doarmos, quando encontraram uma caixa, forrada com um papel de cor azul e estrelas prateadas. Entregaram-me e eu abri, com um sentimento de profunda tristeza e saudade, e a sensação de estar entrando no universo sentimental dela, que há tão pouco tempo estava ali, com ela, ao nosso lado, e naquele momento era só o vazio e a dor.
Um pequeno livro me chamou a atenção. Peguei-o e encontrei na primeira página, escrita com a letra dela, a seguinte poesia:


Quando
Autora: Célia R. Steffens

Quando a saudade chegar,
Quando você sentir sua dor,
Lembre-se que eu estarei sentindo o mesmo.

Quando pensar em mim,
Num instante de solidão,
Lembre-se que de você,
Eu não esqueço por um segundo.

Quando sonhar comigo,
Ao acordar não esqueça,
Que você
É a minha realidade

Quando olhar triste para o mar,
Vendo o sol descer no horizonte,
Lembre-se que também estou aqui,
Vendo o sol se por.

Quando a chuva cair,
Num dia cinzento,
Não esqueça que estarei imaginando,
Você naquele instante.

Quando sentir frio ou medo
De uma tempestade,
Lembre-se que você é minha segurança,
Mesmo estando distante.

Quando sentir falta de meus carinhos,
Quando precisar do meu abraço,
Lembre-se que estarei esperando,
Porque eu também preciso de você.
30.09.1990


Tanto foi o choro que quase não consegui concluir a leitura, imaginando o que a teria impulsionado a copiar uma poesia que, de forma quase profética, descrevia o que estaríamos vivendo 13 anos depois. Meu sentimento foi de ela estar, de um outro plano, me dizendo, naquele momento, palavras de carinho, conforto e conformação.

Gilvan Almeida

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Arthur Rimbaud

Observo a minha vida e vejo que, em alguns aspectos, quase sempre andei na contramão da história, um pouco distante dos desejos do que os mais velhos queriam para mim. Ainda criança, apesar de brincar bastante, nas ruas enlameadas ou poeirentas, e às margens do rio Acre, havia momentos em que deixava de lado as brincadeiras e, a contra gosto dos amigos, ia ler. Vivíamos a Rio Branco da década de 60, provinciana e isolada do país. Poucos intelectuais, quase nenhuma livraria pública. Minha mãe me envolveu desde muito cedo na arte e na paixão pela literatura e, junto com minha madrinha, conseguiam livros e revistas para saciar minha sede.
Na faculdade a maioria dos alunos queria superespecializações, eu queria medicina social, generalista, ser médico de pobre. Muitos colegas acomodaram-se na ideologia política vigente, implantada pela ditadura militar, eu, autodidaticamente, mergulhei de cabeça nas vidas e nas teorias socialistas de Marx & Engels, Lênin, Mao-Tsé-Tung, Fidel Castro, Che Guevara, Ho Chi Minh e outros teóricos esquerdistas que encontrei. Concluindo a faculdade, após um ano de torturante trabalho (forçado) no Exército, em vez de procurar uma tradicional Residência Médica fui trabalhar em um barco, no Rio Juruá, entre Cruzeiro do Sul (Acre) e a foz, no rio Solimões (Amazonas). Passei todo o ano de 1982 em viagens entre os seringais, atendendo seringueiros, ribeirinhos e índios, período que considero minha verdadeira residência médica.
Cedo percebi que a Medicina Alopática não atendia às minhas aspirações de médico, não preenchia os parâmetros de abordagem, relação médico-paciente, tratamento e cura que eu já imaginava e queria, que tinha como base a medicina segundo Hipócrates e, mais tarde, conforme Samuel Hahnemann. Foi então que descobri, em 1986, uma ciência médica, a Homeopatia, que abracei vigorosamente, por me dizer o que acredito, que olha não só a doença física isolada e sim o doente e sua doença, o ser humano integral, em sua essência, tendências patológicas e interrelações, no que o faz ser saudável ou não. Não me importou a marginalização e a falta de conhecimento que a Homeopatia era tratada pelo meio médico e não médico. Mudei-me, junto com minha família, para São Paulo, com o principal objetivo de fazer a Especialização em Homeopatia.
Assim, percebo que em diversos campos faz parte da minha sina conviver e amar pessoas, temas, ciências e artes marginais. Dentre tantas vertentes, destaco hoje, na literatura, este que foi um dos poetas mais marginais que a França já produziu: Arthur Rimbaud (Charleville, 20 de outubro de 1854 - Marselha, 10 de novembro de 1891), um pária social, misto de genialidade com transtorno mental, que teve uma meteórica carreira literária cheia de conflitos e glória. Só o conheci há bem pouco tempo, ano de 2010, através de sua principal obra: Uma temporada no inferno. No decorrer da leitura senti estar acrescentando ao meu tesouro cultural uma jóia de especial valor, juntando-se aos especialíssimos Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Machado de Assis, Rilke, Erasmo de Roterdam e outro(a)s. Interessante, é que esta valiosa aquisição gerou em mim, como sempre que ganho o que considero um presente da natureza, uma intensa vontade de compartilhar, e tristemente vi que talvez fosse mais um prazer que tenho que usufruir quase solitariamente. Com quem posso compartilhar Rimbaud? A triste pergunta sem resposta.
Tal qual Fernando Pessoa, reconheço em Rimbaud um mestre da palavra escrita. Tem frase dele que preciso parar mais de uma vez para tentar compreender o que ele quer realmente dizer, o que abrange o universo de cada palavra, o que ele "brinca de esconder" nos mistérios das entrelinhas. Como por exemplo: "Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens." Ele dá um nó na racionalidade e é preciso que nos deixemos conduzir pela intencionalidade sentimental e existencial dele, para percebermos melhor “o que é” escrever silêncios, escrever noites, anotar o inexprimível, fixar vertigens. Teoricamente nada disso é possível. Mas para ele é, pois conseguia unir, ou melhor fundir, o objetivo com o subjetivo, o concreto com o abstrato, a razão com o sentimento. E isso ganha uma dimensão bem maior, quando sabemos que toda a sua obra foi escrita dos 15 aos 20 anos, sendo sua obra prima - Uma temporada no inferno, escrita aos 19 anos, como também ao sabermos de sua vida marginal, totalmente antissocial, desligado que sempre foi das normas e convenções sociais. Aos 15 anos já era um dos autores mais premiados da Europa. Infelizmente precoce e fugaz foi sua carreira.
Em 2011 encontrei um belo ensaio “Rimbaud, a vida dupla de um rebelde”, de Edmund White, que ampliou, ainda mais, minha admiração pelo “anjo rebelde”. Compartilho um trecho que me chamou a atenção. O que está em negro é do autor – Edmund – e em vermelho de Rimbaud: "...A fim de se tornar um verdadeiro poeta, escreve Rimbaud, o escritor precisa se transformar num vidente: "O Poeta se torna vidente por um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos". O poeta tem de se submeter a uma tortura autoinvestigativa; tem de padecer todas as agonias do amor, do sofrimento e da loucura. "Ele precisa de toda a fé, de toda a força sobre-humana, de modo a se tornar entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito - e o supremo Sábio! - pois ele chega ao desconhecido".

Gilvan Almeida

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ave Maria - Fernando Pessoa

Conheci recentemente este poema, que Fernando Pessoa dedicou “à minha mãe”, aos 13 anos de idade (não sei a qual mãe ele se referia, se a da terra ou a do céu):

“Ave-Maria”
Fernando Pessoa

Ave-Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvide a prece tirada
No meu peito da amargura.

Vós que sois cheia de graça
Escutai minha oração,
conduzi-me pela mão
por esta vida que passa.

O Senhor, que é vosso filho
Que seja sempre conosco,
assim como é convosco,
eternamente o seu brilho.

Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da terra
E voss’alma só encerra
Doce imagem de alegria.

Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!

Gloriosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus
Velai por nós cada dia.

Rogai por nós, pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores.

Rogai, agora, oh mãe querida
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte
Quando nos fugir a vida.

Ave-Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvide a prece tirada
No meu peito da amargura.

Gostei muito desta pintura de Ronaldo Mendes: Nossa Senhora da Paz.
Detalhes que admirei:
-Maria com cara de menina, próxima, de povo, e não aquela tradicional de Santa.
-Jesus de meias.
-Jesus já com os estigmas nas mãos.
-O aviãozinho e o pássaro de coroa, tal qual o Rei Jesus.

Gilvan Almeida
P.S.: Grato, Silmara, por mais esta participação especial, com a imagem.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Edgar Allan Poe

Mandei este poema para algumas amigas estranhas que tenho, figuras algo próximas ao que descrevi no post Gente Estranha - http://www.gilvanalmeida.blogspot.com.br/2010/10/gente-estranha.html  

Queridas ETs (é assim que eu as trato): Já tinha ouvido falar e lido um pouco a respeito do poeta Edgar Allan Poe, mas nunca havia lido nada escrito por ele. Hoje estou tendo este prazer e pensei em compartilhar com vocês. Diz algo de mim. E de vocês também....risos
abs
Gilvan

Só

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alva
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.

Uma delas respondeu:
Amigo Gilvan, Que lindo! diz "muito" de mim, também. É tão próximo do nosso mundo de ETs (adoro esse clube... e minha inclusão me causou sentimento de gratidão). E pois! Allan Poe (que conheço, também, muito pouquinho), fez partes de minhas curiosidades como contista. Achei algumas semelhanças (nos seus contos) com o nosso grande Machado de Assis, no sentido de fazer suas narrativas na primeira pessoa (procurei estudá-lo em alguns dos meus momentos de buscas). Além do que, sua leitura muito me instiga por transitar entre a lucidez e a loucura. Para mim um ponto de vista muito interessante nesse "admirável mundo louco", em que muito loucos são tidos com sãos, e muitos sãos tidos como loucos. "Mais louco é quem me diz que não é feliz... e eu sou feliz". Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como outros viam. Até hoje me vejo/sinto tão diferente dos "comuns" (será que vivo na infância eterna, rs?). abraços fraternos.
OMM
PS: diga para a V que todas as palavras que ela enviou estão guardadas no meu relicário de boas coisas, boas pessoas, jóias raras...agradeço e mando beijos.

Edgar Allan Poe (Boston, 19 de janeiro de 1809 – Baltimore, 7 de outubro de 1849 foi um escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor estado-unidense. Poe é considerado, juntamente com Jules Verne, um dos precursores da literatura de ficção científica e fantástica modernas. Algumas das suas novelas, como The Murders in the Rue Morgue (Os Crimes da Rua Morgue - editado pela primeira vez na revista Graham's Magazine), The Purloined Letter (A Carta Roubada) e The Mystery of Marie Roget (O Mistério de Maria Roget), figuram entre as primeiras obras reconhecidas como policiais, e, de acordo com muitos, as suas obras marcam o início da verdadeira literatura norte-americana.
Leia mais em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Edgar_Allan_Poe  

Mais alguns pensamentos dele:
-Tudo o que vemos ou parecemos não passa de um sonho dentro de um sonho.
-Para se ser feliz até um certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto.
-Não é na ciência que está a felicidade, mas na aquisição da ciência.
-Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite.
-É de se apostar que toda idéia pública, toda convenção aceita seja uma tolice, pois se tornou conveniente à maioria.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sexta feira poética

Copiei esta idéia do excelente blog Caquis Caídos - http://caquiscaidosblog.wordpress.com/ , infelizmente concluído em 28.01.2012. (mas ainda disponível para leitura), que aos sábados publicava poesias. Como gosto muito das sextas feiras, vou chamar Sexta feira Poética; um espaço onde compartilharei poesias e pequenos textos que gosto.
Inicio com o poeta Junqueira Freire (1832 – 1855), baiano de saúde frágil, que em seus breves 23 anos de vida, deixou-nos um belo legado poético.

Gilvan Almeida

Louco (Hora de Delírio)
Junqueira Freire

Não, não é louco.
O espírito somente é que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
aproxima-se mais à essência etérea.

Achou pequeno o cérebro que o tinha:
suas idéias não cabiam nele;
seu corpo é que lutou contra sua alma,
e nessa luta foi vencido aquele.

Foi uma repulsão de dois contrários,
foi um duelo, na verdade, insano,
foi um choque de agentes poderosos:
foi o divino a combater com o humano.

Agora está mais livre. Algum atilho
soltou-se-lhe o nó da inteligência;
quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
entrou agora em sua própria essência.

Agora é mais espírito que corpo,
agora é mais um ente lá de cima;
é mais, é mais que um homem vão de barro:
é um anjo de Deus, que Deus anima.

Agora, sim — o espírito mais livre
pode subir às regiões supernas:
pode, ao descer, anunciar aos homens
as palavras de Deus, também eternas.

E vós, almas terrenas, que a matéria
os sufocou ou reduziu a pouco,
não lhe entendeis, por isso, as frases santas.
E zombando o chamais, portanto: - um louco!

Não, não é louco. O espírito somente
é que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre.
Aproxima-se mais à essência etérea.

Bibliografia - Obras:
Inspirações do claustro (1855); Elementos de retórica nacional (1869); Obras, edição crítica por Roberto Alvim, 3 vols. (1944); Junqueira Freire, org. por Antonio Carlos Vilaça (Coleção Nossos Clássicos, nº 66); Desespero na solidão, org. por Antonio Carlos Vilaça (1976); Obra poética de Junqueira Freire (1970).

terça-feira, 10 de abril de 2012

Thomas Mann: Morte em Veneza

Um dos motivos que peço a Deus uma longa, lúcida e saudável vida, é para ter tempo de ler todos os livros e autores que ainda não consegui ler. Não posso morrer sem ler Proust, Balzac, Marguerite Duras, James Joyce, Faulkner, Dante, Santo Agostinho, Flaubert, e tantos outros que planejo ler ainda nesta vida. Há muito queria conhecer o escritor alemão Thomas Mann, Prêmio Nobel de Literatura em 1929. Vi o filme Morte em Veneza, produzido em 1971 e dirigido pelo cineasta italiano Luchino Visconti, baseado no livro Morte em Veneza, de Mann, gostei muito e cresceu mais ainda a vontade.
Quando, finalmente, li Morte em Veneza, fiquei admirado com o estilo do escritor, que, nesta obra, faz uma ode à beleza, à arte e ao amor. Entrou, para mim, no rol dos escritores que são verdadeiros artistas e escultores da palavra, à altura de Fernando Pessoa, Manoel de Barros, Clarice Lispector, Oscar Wilde, Machado de Assis, Gabriel Garcia Marquez e outros “deuses” que estão em “meu” Monte Olimpo da literatura.

Vejam alguns trechos do livro:

-“(...) As observações e as vivências do solitário calado são ao mesmo tempo mais difusas e intensas do que as dos seres sociáveis, seus pensamentos, mais graves, mais fantasiosos e sempre marcados por um laivo de tristeza. Imagens e impressões que facilmente seriam esquecidas com um olhar, um sorriso, uma troca de opiniões ocupam-no mais do que o devido, aprofundam-se no silêncio, ganham significado, transformam-se em vivência, aventura, sentimento. A solidão engendra o original, o belo ousado e surpreendente, o poema. Mas engendra também o inverso, o desmedido, o absurdo e o ilícito. (...)”
-“(...) a beleza, e apenas ela, é simultaneamente visível e enlevadora. Ela é a única forma ideal que percebemos por meio dos sentidos e que nossos sentidos podem suportar. Ou o que seria de nós se acaso o Divino, a Razão, a Virtude e a Verdade se dispusessem a aparecer aos nossos sentidos? Não iríamos sucumbir consumidos pela chama do Amor? (...)
-“(...) A suprema ventura do escritor é o pensamento capaz de tornar-se por inteiro sentimento, o sentimento capaz de tornar-se por inteiro pensamento. (...)”

Olhem a descrição que Mann faz do personagem principal presenciando a aurora e o amanhecer, narrativa enriquecida de elementos de mitos gregos:

“ (...) sentava-se junto à janela aberta, para esperar o nascer do sol. O maravilhoso acontecimento enchia de veneração sua alma abençoada pelo sono. Céu, terra e mar jaziam ainda imersos na palidez vítrea, fantasmagórica, que precede o alvorecer; uma estrela devanescente pairava ainda no vazio. Mas um sopro, mensagem alada de paragens inacessíveis, vinha anunciar que Eos se erguia de junto de seu esposo e acontecia aquele primeiro e delicado enrubescer das faixas mais longínquas de céu e do mar, com o qual a criação principia a se desvelar aos sentidos. Aproximava-se a deusa raptora de adolescentes, que arrebatara consigo Clito e Céfalo e que, enfrentando a inveja de todo o Olimpo, desfrutava do amor do belo Órion. Lá na orla do mundo, um espargir de rosas desencadeava um luzir e florescer de encanto indescritível, nuvens infantis iluminadas, translúcidas, pairavam como Amores obsequiosos na névoa róseo-azulada; púrpura se derramava sobre o mar que com suas vagas ondulantes parecia espalhá-la por sua superfície; lanças douradas se lançavam no mar nas alturas do céu; o brilho incendiava-se silenciosamente, com plenipotência divina; erguia-se o turbilhão de brilho incandescente, ardor e labaredas flamejantes, e os corcéis sagrados de Apolo se elevavam acima do orbe terrestre, devorando o espaço com seus cascos impacientes. Iluminado pelo esplendor do deus, a sentinela solitária ali sentada fechava os olhos, deixando que a glória lhe beijasse as pálpebras. Sentimentos antigos, deliciosos tormentos de um coração juvenil, que haviam se extinguido em meio à severa labuta de sua vida e que ressurgiam agora tão estranhamente transfigurados – ele os reconhecia com um sorriso embaraçado e admirado. Cismava, sonhava, seus lábios lentamente articulavam um nome e, ainda sorrindo, o rosto voltado para o céu, as mãos enlaçadas no colo, adormecia de novo em sua poltrona.(...)

Indico-lhes o filme e o livro.

Gilvan Almeida

domingo, 1 de abril de 2012

Clarice Lispector e as dores do mundo

"Refugiei-me na doideira porque a razão não me bastava."
Clarice Lispector

Ainda não conhecia este pensamento dela. Impactou-me positivamente e fez crescer minha compreensão sobre os transtornos mentais, aliás, sobre os seres humanos. Todos somos, no mínimo, neuróticos, não é mesmo? Já se assumem assim, ou ainda acham que são 100% normais?
Loucura é prisão ou liberdade? Depende do ângulo do olhar. Observemos nossa vida, nossa trajetória íntima, aquela que se esconde por trás de todas as máscaras que utilizamos, e que ao dormirmos os sonhos revelam. De tantas prisões já escapamos e de quantas ainda somos prisioneiros. Inúmeros refúgios buscamos, com o objetivo, nem sempre sabido, de sobrevivermos psicológica e emocionalmente ao que estávamos vivendo.
Muito além de viventes, nós somos sobreviventes mesmo. Refugiados das dores do corpo e da alma, lapeados pelos chicotes da incompreensão e do preconceito, da intolerância e do desamor, da fome de pão e carinho, estamos escapando, nem tanto como o poeta Cazuza diz “...estou sobrevivendo sem um arranhão...”, estamos sobrevivendo com muitos arranhões. Algumas feridas já cicatrizadas, outras ainda sangrando, à espera de atenção e cuidados.
Sem apoio, abandonados por amigos e inimigos, alguns não agüentam “a barra” e “piram”, fogem, consciente e inconscientemente, da realidade tão cruel e dolorosa.
Alguém pode até achar que estou sendo duro e amargo, que só escrevo sobre sofrimento, mas não estou. Não tenho dúvida de que a dor é companheira de viagem. Todos os grandes Mestres falam nela, da importância que elas têm para a vida e a evolução, chegando até mesmo a trazerem a compreensão de que quanto maior o conhecimento, maior a dor; quando não mais por si, pelo próximo. Assim, a vida é dor e sofrimento, embora não seja só isso. Graças a Deus. Temos também alguns momentos de alegria, paz e felicidade.
A dor e o sofrer são minhas principais matérias primas de trabalho. Lido com isso todos os dias e, sem poder parar para cuidar das minhas, vou fazendo o que posso para, ao mesmo tempo, cuidar de mim e de quem me procura com o objetivo de conhecer e tratar, na origem, os seus sofrimentos. Nesta procura/entrega, recebo às vezes e-mails inspirados nas próprias dores, relatos do fundo d'alma, como este a seguir.

Gilvan Almeida

“ Lí o seu texto e o dela (Clarice) – postagem no blog: http://www.gilvanalmeida.blogspot.com.br/2011/04/o-grito-de-clarice-lispector.html  ... Eu confesso-lhe que não grito. Ensinaram-me a tentar "dominar" a dor, desde pequena; a trincar os dentes, a sorrir "chorando" por dentro ... Em momentos de meditação já me flagrei chorando, as lágrimas caindo pelos cantos dos olhos, abundantemente, sem que eu pudesse contê-las e nem compreender porque aquilo estava acontecendo.
Recordo ouvir da minha avó a seguinte recomendação: "se você gritar, a dor vai lhe dominar. Domine a dor." É possível dominar a dor, Gilvan? Parece que sim, embora, às vezes, ela lhe trucide e deixe destroçada! Mas, tudo tem seu lado bom e seu lado ruim. Depende de que lado você está olhando as coisas.( ...) Eu fui "estraçalhada" pela dor em tantos pedaços, que fiquei transpassada. (...)
Lembra da música? "Ei dor, eu não te escuto mais, você não me leva a nada ... Ei medo, eu não te escuto mais, você não me leva a nada ..." Pois é. Nem dor, nem medo levam a nada. Ambos precisam ser enfrentados e vencidos.
A dor, realmente doída, é a da alma, embora eu seja intolerante a dor física. Essa eu grito mesmo, em algumas situações, se for necessário, porque não sou resistente a esse tipo de "dor", sou mole. Já aquela dor que você refere, eu não grito mais, eu a sufoco silenciosamente e dissipo-a nos meus afazeres cotidianos. Desde criança criei mecanismos para fugir do que me causava dor (abandono, desamor e solidão). Tenho uma natureza solitária. Aprendi a resistir, utilizando as minhas próprias forças. Nunca espero ajuda externa - de quem quer que seja. Só espero a ajuda de Deus - e ele nunca me deixou só. Você acha que esta altura da vida dá prá mudar isso em mim? Prá mim, tanto faz ... aprendi a me aceitar assim. risos.
Tenho absoluta dificuldade de falar de mim e das minhas dores. Elas me moldaram ao que sou. Me trabalho muito, para conviver bem comigo mesma. Para me aceitar e transformar, dentro do possível, o que precisa ser transformado. Convivo bem comigo. Gosto da minha companhia e, desculpe dizer, gosto muito de estar com os meus bichos. O que é vida bem vivida? O que é vida mal vivida? Pode-se ter como um parâmetro de vida bem vivida, a do Príncipe William e sua noiva Kate? Essa coisa de príncipe e princesa que o mundo põe na cabeça da gente ... rsrsrsrsrs ...
Mas, sendo bem sincera comigo, posso concluir que vivi MUITO a vida, passeei, andei, viajei, me diverti bastante, mas e hoje, me pergunto: minha vida é bem vivida ? Eu só trabalho, trabalho e trabalho. Os filhos crescidos, minha fonte de prazer, é o trabalho. Se me tirarem o trabalho, eu tenho o quê? - Meu trabalho é a minha "muleta" ... Boa reflexão você me trouxe. Preciso melhorar a QUALIDADE da minha vida!
Aguardo os desdobramentos dos seus estudos.”
C.