domingo, 19 de fevereiro de 2012

Autoconhecimento

Todo ser humano, tenha consciência ou não, queira ou não, é um viajante no tempo à procura de si mesmo, na eterna busca de ser feliz, e esta caminhada necessariamente precisa ser feita em seu interior. Quanto mais ele procura fora, mais se perde, e mais a vida dele torna-se sem significado e sem sentido. Sócrates (470 – 399 a.C.), filósofo ateniense que viveu na Grécia, um dos fundadores da atual Filosofia Ocidental, tinha entre seus ensinamentos o célebre “Conhece-te a ti mesmo”, princípio filosófico que também era orientado aos peregrinos no Oráculo de Delfos (*). E o que vemos no mundo ocidental, hoje em dia: um estímulo total a se buscar tudo fora, o consumismo sendo sinônimo de felicidade, de paz, de amor, nos mais variados tipos de modismos, tudo capitaneado pelo capitalismo, através da criação de bens de consumo em todas as áreas da atividade humana ( saúde, informática, produtos eletrônicos, alimentícios etc). Comprar passou a ser, para muitos, aliviador de stress, de melhora de auto-estima. Além disso vemos todo um culto a olhar a vida do outro, espionar, bisbilhotar, fofocar, criticar e condenar impiedosamente. Não é por acaso o grande sucesso de público das novelas, do big brother Brasil, dos programas de auditório onde, de forma circense, vidas humanas são expostas cruelmente, e quanto maior o “barraco”, melhor, como também os que fofocam sobre as vidas das “celebridades”, auxiliados pelos jornais escritos e internet. Assim olhamos a vida dos outros e esquecemos da nossa, só adiando este fundamental encontro conosco mesmos. Passou o modismo volta a insatisfação, a insegurança, a depressão, o desamor. Poucos se olham com sinceridade, pois é duro mesmo vermos nossas fragilidades e fracassos, o que precisa para realmente encontrarmos a tranqüilidade e uma vida melhor.
Quem sou eu?
De onde vim?
O que faço, ou o que é para eu fazer, aqui neste planeta?
Para onde vou?
Considero estas perguntas o ABC para quem quer aprender a respeito do autoconhecimento, este que é o pilar principal do desenvolvimento do ser humano para diversas filosofias, como também para que cheguemos a um melhor estado de saúde.
Estudando o Eneagrama (**) encontrei e amadureci mais uma pergunta que, a partir de agora, considero também chave para a busca do conhecimento de si: “Qual a minha maneira peculiar de distorcer a realidade?” Já vinha estudando por este prisma, a partir do momento em que passei a entender que cada um percebe a realidade de forma peculiar e única, que simbolizei através de um par de óculos, “construído” em nossa infância e adolescência, com base na criação que nossos pais (ou outros adultos) nos deram e também em nossas predisposições. Por quais óculos eu vejo a vida?, era a pergunta que já vinha me fazendo e que buscava também entender nas pessoas, sendo os óculos as feridas, as dores, a baixa auto-estima, os complexos e traumas, em sua maioria, já que são raros os óculos de alegria, paz, bondade, compreensão, tolerância. Estes óculos contaminam a nossa visão e, conseqüentemente, a interpretação da realidade. Deixamos de ver o real, pois entre o que a coisa é, realmente, e o nosso coração, há todo o conteúdo contido nos óculos, filtrando tendenciosa e inconscientemente, deturpando, escondendo, maximizando ou minimizando afetivamente o significado dos acontecimentos e dos sentimentos. Assim, cada um pensa, sente, age e reage de acordo com esta percepção da realidade, nem sempre correta ou adequada.
Então o que fazer?
Entendo que não dá para tirar os óculos, e que a solução é conhecê-los profundamente, para que assim, entendendo os íntimos mecanismos de funcionamento, possamos limpar e equilibrar todo o conteúdo deles. E, para mim, isso só é possível através do conhecimento de si mesmo.

Gilvan Almeida

(*) Durante mais de 15 séculos, do nascimento ao fim da cultura grega antiga, o Oráculo de Delfos, ou templo de Apolo, serviu como local onde os peregrinos vindos das mais diversas latitudes do mundo helênico consultavam as pitonisas, as sacerdotisas oraculares, para saber qual o seu destino, da sua família ou da sua pátria. Delfos tornou-se um dos lugares sagrados mais venerados pelos gregos, sendo que suas previsões e predições tiveram enorme repercussão nos destinos de reis, de tiranos e de muita outra gente famosa daqueles tempos.
Fonte: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/antiga/2003/08/29/001.htm

(**) Eneagrama (do grego enneas = nove e grammos = pontos) é a denominação da mandala dessa figura (ver no site) que pode ser usada para o estudo dos nove tipos de personalidade presentes na humanidade. Esse estudo tem como base uma antiga tradição de conhecimento oriental que esteve oculta durante séculos, mas que reapareceu no Ocidente em meados do século XX. Seu estudo permite uma rápida ampliação de nossa consciência a respeito do conhecimento de nós mesmos e dos outros, da natureza do ego e de seus vínculos que percebemos na realidade do cotidiano.
Fonte: http://www.eneasat.com.br/eneagrama

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Superproteção é uma forma de abuso infantil

Prezado(a)s:
Li o livro O drama da criança bem dotada, de Alice Miller (12.01.1923 – 10.04.2010), em 2005. Talvez o livro que mais mexeu comigo até hoje, porque me fez dar um mergulho nos porões, nas raízes do meu ser, revelando-me aspectos da infância, criação, pai e mãe, traumas, complexos, enigmas a serem desvendados e superados.
Gostei muito desse texto de Rosemeire Zago, elaborado com base em Alice, psicóloga polonesa,  que se mudou para a Suíça em 1946. Seu trabalho é notável pelo enfoque em abuso infantil.
Aos que estiverem dispostos, recomendo o texto e o livro.

Gilvan Almeida

Superproteção é uma forma de abuso infantil
por Rosemeire Zago

“Só se pode entender uma vida quando se leva a sério seu começo”. Alice Miller (Ph.D. em psicologia).

"Superproteção, mimos e submissão exagerados durante a infância, podem gerar muita insegurança na vida adulta, pois a criança não foi incentivada a acreditar em si mesma"
Todos sabemos que a autoestima, tão essencial em nossa vida, começa a se formar na infância, a partir de como as outras pessoas nos tratam. Quando criança, pode-se alimentar ou destruir sua autoconfiança. Ou seja, as experiências do passado exercem influência significativa quando adulto.
Só para lembrar: autoestima é ter consciência de seu valor pessoal, ou seja, acreditar, respeitar e confiar em si, é a soma da autoconfiança com o autorrespeito. É acreditar que é capaz!
Quais foram as experiências que você teve quando criança? O quanto você tem consciência de seu valor?
Quem sofreu algum tipo de abuso, psicológico, físico e/ou sexual, terá muita dificuldade em perceber seu próprio valor e a sensação de ter valor é essencial à saúde mental. Essa certeza deve ser obtida na infância. Toda criança precisa ser amada incondicionalmente, ao menos nos primeiros anos. Sem os pais como espelho de uma atitude de aceitação, a criança não tem como saber quem ela é.
O que os pais nos fazem quando criança, sentimos como se fosse o certo, como deve ser feito, não questionamos, apenas aceitamos. Quando as necessidades de uma criança são negligenciadas, recebem a mensagem que suas necessidades não são importantes e perdem a noção de seu valor pessoal.
Pais exigentes, agressivos, críticos, autoritários, que demonstram que a criança não é digna de confiança, impondo suas próprias vontades, não ouvindo o que as crianças têm a dizer, criam filhos inseguros e dependentes.
Como também, a superproteção também é uma forma de abuso infantil. Superproteção, mimos e submissão exagerados durante a infância, podem gerar muita insegurança na vida adulta, pois a criança não foi incentivada a acreditar em si mesma.
Assim, cresce, ainda que inconscientemente, acreditando que faziam tudo por ela por não ter a capacidade de fazer por si mesma. Quando adulta, irá acreditar que o mundo seria como seus pais, que jamais ouviria um “não”, tendo muita dificuldade em suportar frustrações. Essas crianças podem desenvolver um sentimento de insegurança, por não sentirem confiança em suas próprias habilidades, uma vez que os outros sempre fizeram tudo por elas. Acredita que seu valor depende de ser amado. Como não tem noção de seu próprio valor, só compreende o valor dos outros.
Alice Miller (autora de vários livros, lutadora em defesa das crianças) nos fala sobre três conceitos importantes para nossa reflexão e maior entendimento:
-Pedagogia negra: consta numa educação que visa transformar a criança em submissa e obediente por meio do poder, manipulação e repressão, ainda que velado. Crianças que foram “adestradas” a obedecer aos desejos e ordens dos adultos, passam a infância e adolescência contendo e disfarçando a raiva e depois a usam automaticamente.
-Testemunha auxiliadora: é uma pessoa que ajuda a criança maltratada ou negligenciada, ainda que de forma esporádica, oferecendo um pouco de apoio e amor. Pode ser uma vizinha, um professor, avó, tia. Graças a essa testemunha a criança começa a saber que existe amor. Você teve alguma?
-Testemunha conhecedora: na vida do adulto essa pessoa pode representar um papel semelhante ao da testemunha auxiliadora na criança. É uma pessoa que conhece as consequências da negligência e maus-tratos sofridos pelas crianças e a ajuda enfrentá-los e elaborá-los. Geralmente o psicólogo pode ajudar essas pessoas a entenderem melhor suas histórias e se libertarem.
Sem a testemunha conhecedora é impossível suportar a verdade da infância. A psicoterapia pode proporcionar o reconhecimento emocional da verdade armazenada no corpo, a libertação da lei do silêncio e da idealização dos pais.
Quando crianças, aprendemos a reprimir e negar sentimentos. Muitos aprenderam que as humilhações e surras foram para o próprio bem e não provocam dores. E com isso aprende-se também a utilizar no futuro, a violência contra os outros ou contra si mesmo.
O que podemos fazer?
Tornar consciente o que sofremos e confrontar com os conhecimentos atuais. Perceber que éramos cegos porque tínhamos que nos proteger das dores, enquanto não tínhamos uma testemunha que pudesse nos ouvir com empatia.
O adulto, não é mais impotente, e pode oferecer a criança proteção e ouvido atento, para que possa expressar a seu modo e contar a sua história. Portanto, se você sofreu algum tipo de abuso, não tenha vergonha de procurar quem o ajude a entender sua história e encontrar sua verdade.

Dicas de leitura:
Miller, Alice:
1.A Verdade Liberta. Ed Martins Fontes.
2.O Drama da Criança Bem Dotada. Summus editorial.
Fonte: http://www2.uol.com.br/vyaestelar/superprotecao_abuso_infantil.htm

Prezado(a)s:
Um pouco mais sobre o livro que citei. O subtítulo é: como os pais podem formar(e deformar) a vida emocional dos filhos. Nas apresentações o livro esclarece a quem se destina:
"Você foi amado(a) incondicionalmente pelo que realmente era? Ou o foi pelos seus feitos, sua graça, sua beleza, adequação, obediência ou, ainda, por seu precoce treino ao banheiro, por ser muito “boazinha” (“bonzinho”), “não dar nenhum trabalho”, ter aprendido muito cedo os seus “deveres”, por ter cuidado dos irmãozinhos? Em suma, você era o “orgulho” da família? Se aconteceu isso, você faz parte da grande maioria das pessoas e, então, este livro é para você, para nós que fomos amados, ou seja, amados sob a condição de que correspondêssemos às expectativas, por vezes, insaciáveis, daqueles que cuidaram de nossa “educação”.
Enfatiza que continuaremos a ser reféns dessas emoções reprimidas em nossas infâncias enquanto continuarmos negando o fato de elas terem existido e nos marcado, tendo dessa forma, estabelecido um padrão que prevalecerá em quase todas as nossas relações. A sua conclusão mais chocante para nós é que, em decorrência dessas negações e repressões, até as nossas psicoterapias só poderão deixar de ser manipulativas e controladoras na medida em que todos nós pararmos de negar essas histórias tristes e essas nossas verdades reprimidas e atuantes."
Quem está com disposição de aprofundar um pouco mais o autoconhecimento este livro é um ótimo instrumento.
Mais dois pontos importantes que ele aborda:
-"A ilusão trágica de que admiração centrada em qualidades, funções e realizações significa amor";
-"O filho feito bode expiatório pela mãe, por causa da relação com o marido ou trauma infantil dela";

Gilvan Almeida

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Passado, presente e futuro

Há diversas formas de conhecermos os seres humanos. Uma delas é ver como que cada um vive em relação ao tempo. Algumas pessoas vivem no passado: umas através do saudosismo, em que só as coisas de antigamente é que eram boas, tudo no tempo delas era melhor, que o mundo atual está perdido, pois todos os bons valores de sua época se perderam ou foram deturpados; outras vivem no passado guardando e cultivando profundas mágoas de situações vividas, remoem ressentimentos, nutrem planos de vinganças, vivendo novamente as dores a cada vez que pensam ou alguém fala sobre o que aconteceu, verdadeiras prisioneiras do ontem que não se libertam para viver o hoje. Há os que vivem no futuro, apressados, impacientes, preocupados e ansiosos com o que vai lhes acontecer, antecipam o futuro, geralmente de maneira trágica, pessimista, imaginando sempre o pior, criando situações em pensamento, como se fossem verdades e sofrendo por antecipação. Não sabem esperar o futuro chegar sob a forma de presente. Poucas pessoas vivem no presente, vivenciando a realidade atual de forma intensa e concentrada, assumindo responsabilidades, erros, culpas e aproveitando a vida, degustando os frutos das vitórias obtidas. Assim, quem vive no passado precisa de asas para voar até o presente, e quem vive no futuro precisa de âncora para permanecer no presente. Qual é o tempo em que você vive?
Gilvan Almeida

sábado, 21 de janeiro de 2012

Plantão

Nunca gostei de dar plantão, do ambiente “de guerra” dos atendimentos de emergências. Na faculdade aprendi o básico das urgências e emergências clínicas e cirúrgicas no Pronto-socorro, e depois passei a me dedicar ao que mais me identifico dentro da Medicina: o atendimento não só à “doença do paciente” e sim ao “ser humano com sua doença”. Pedia aos colegas do plantão que quando chegassem casos de distúrbios psicológicos e somatizações (denominados pitis, na época), que encaminhassem para eu atender. Gostava de escutar os dramas e conflitos existenciais , que quase sempre estão por trás de tais casos, e vibrava quando conseguia propiciar o espaço para a pessoa desabafar toda a dor, melhorar e poder ir para casa, sem lançar mão de medicamentos psicotrópicos, que eram feitos rotineiramente, sem qualquer conversa anterior ou posterior à medicação.

Somente quando comecei a trabalhar em um Hospital Psiquiátrico, em 2006, é que realmente me identifiquei com o público-alvo e o tipo de trabalho que lá desenvolvemos, e passei a gostar de dar plantão.
São muitos os aprendizados que vivencio a cada plantão, tanto como médico quanto, e especialmente, como ser humano, no convívio com a realidade tão dura e sofrida do paciente psiquiátrico e suas famílias, reflexo da falta de prioridade das políticas de saúde pública para a área da saúde mental.
Encontrei e gostei muito desta imagem, pois mesmo gostando do plantão, há dias em que o desgaste físico e emocional é imenso. Às vezes, sinto-me assim como ela mostra. Mas me recupero e no próximo plantão estou novinho em folha.


Gilvan Almeida

sábado, 14 de janeiro de 2012

Amizade verdadeira

Quanto mais o tempo passa, mais vejo a importância dos amigos em nossa vida e, ao mesmo tempo, como são raros os amigos verdadeiros. Estou aprendendo a ver isso sem amargura, buscando compreender e aceitar as limitações de cada ser humano, a começar pelas minhas. A maioria é mesmo, e somente, colega de caminhada, e alguns somente em momentos em que as coisas estão claras e favoráveis. Fez-se uma sombrinha, algo ruim aconteceu, somem. Incrível, esta percepção de que na escuridão da dor e do sofrimento é que podemos enxergar melhor aqueles com quem podemos contar, o que considero verdadeiros amigos. Mas isso não é motivo para desacreditar no valor da amizade, só não é tão fácil encontrar, muito menos um milhão de amigos, como canta Roberto Carlos. A peneira do tempo, movimentada pelas mãos da realidade me faz hoje, ver que não sei dizer se tenho 10 amigos verdadeiros, sendo bem otimista. E, o que considero positivo, é que estou sofrendo bem menos por esta constatação, com menos amargura e pessimismo, e sem me tornar indiferente ou descrente. Continuo com os mesmos princípios que tinha, de ser um amigo de qualidade de quem quiser. Menos ingênuo agora, talvez, após algumas pauladas da vida, mas bem mais de acordo com o objetivo de ser “...um homem mais sincero e justo comigo...", como diz o poeta, pois antes eu buscava muito isto (ser sincero e justo) com os outros, e não percebia, ou não me valorizava o suficiente, para ter este mesmo cuidado comigo mesmo.
Gilvan Almeida

domingo, 8 de janeiro de 2012

A idade do arrependimento

“Daqui a alguns anos você estará mais arrependido pelas coisas que não fez do que pelas que fez. Então solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.”
Mark Twain

“Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer.”
Mário Quintana

Sinto-me no alvorecer desta idade, que neste texto denominei A IDADE DO ARREPENDIMENTO, pois já me pego, em alguns momentos, questionando-me a inércia, o pouco caso para com algumas coisas que eu queria e fui deixando para depois, ou não lutei com as forças que seriam necessárias para concretizar. Tantos limites auto-impostos, que de alguma forma talvez até me trouxeram menos sofrimento, mas que deixaram um sabor de frustração. Mas acredito que não haja adulto que chegue aos 50 anos e não sinta isso, e procuro entender como uma frustração natural e não como mais um drama para ficar curtindo. Reflexões da pré-3ª idade, como os poetas Mark Twain e Mário Quintana sintetizaram nestas frases acima. O primeiro alerta, previne, incentiva, mostrando que ainda há tempo, que é preciso fazer mais por si, sem se sentir egoísta. O segundo já se pega em pleno remorso de não ter vivido, de ver que já não há mais tempo para viver determinadas coisas, e é sincero e conformado com o próprio fracasso, reconhecendo que viu o tempo passar, a velhice chegar e deixou de viver algo que agora se arrepende.
Há um ano reencontrei-me com uma amiga da Faculdade. Aliás, ela me encontrou, através da internet. 30 anos se passaram e, neste reencontro, nossas conversas de atualização têm mostrado que algumas realidades esmagaram muitos dos nossos sonhos. Apesar de sabermos que não há pessoa que faça tudo o que sonha e o quer para si e para o seu próximo, não dá para esconder de nós mesmos que a amargura tomou um espaço indevido em nossos corações. E isso trouxe um preço a pagar: as dores do físico e do existencial.
Quando jovem pouco se sabe que a vida futura será composta de tanta luta, da abdicação de tantos desejos, do empenho de nossas forças em trabalhos nem sempre saudáveis ou alimentadores de bem-estar, de frustrações que adoecem. A maioria dos planos revolucionários de salvar o mundo, que efervesceram em nossa juventude, vão por água abaixo, e essa transição do idealismo juvenil para o realismo da maturidade é doloroso para a maioria, e nem sempre, ou melhor, quase nunca, há o equilíbrio suficiente para fazê-la de forma harmônica.
Uma amiga da Bahia mandou-me umas reflexões de um amigo, que gostei muito e encaminhei para esta amiga da Faculdade. Mantivemos um diálogo. Selecionei uns trechos para enriquecer esta minha reflexão.


Gilvan Almeida

“....A vida é definida de muitos modos. É também um funil. No início, no meu caso, havia uma família extensa, gigantesca. Criança na fazenda, corria entre dezenas de tios - assentados nos bancos era um sem fim de pernas. Minha mãe tinha 16 irmãos. Aquelas táboas largas no chão. Os primos eram 143. Depois os ciclos escolares, todos grupais. Os amigos da rua, a tchurma de adolescentes. A faculdade radical e festiva, ainda grupal. Depois disto começou (e começa para todos) o segundo ciclo da existência. Onde os amigos lentamente minguam. Uns vão para longe, outros tornam-se irreconhecíveis. Em consequência deixam de ser amigos. Há os que concluem que este tal sicrano é desinteressante. E a morte se manifesta; leva um de acidente. Beltrano parte antes da hora. Quase todos morrem de cancer, por comer agrotóxico a cada dia. As vezes novas amizades são cimentadas. Algumas ficam, outras são fugazes. E lá vamos nós ficando sozinhos. Não adianta espernear. O melhor é cultivar os amigos que perduram e não alimentar muitas ilusões. Há que bastar-se.Trabalhar para bem dormir. Alimentar o intelecto, ou, se prefere, a alma. Observar a natureza. Ter paz e força interior. Os amores chegam, se instalam e passam como os carnavais. Fazer o quê? Ficam lembranças e fotos. Ser sozinho é quase inevitável. Não sofro com isto. Na verdade moro só mas não me sinto sozinho..." O amigo de minha amiga

- É Gilvan, essa pessoa conseguiu verbalizar os sentimentos que muitas vezes assolam meus pensamentos. Saudades de um tempo que eu " Devia ter amado mais, Ter chorado mais, Ter visto o sol nascer. Devia ter arriscado mais, E até errado mais, Ter feito o que eu queria fazer...” Você como sempre tocando na ferida. Obrigada por ser sempre meu amigo, mesmo distante. Graças à internet, essa tecnologia com prós e contra.
H

-Acredito que chegamos à idade do arrependimento, só que agora é o arrependimento do que não fizemos, como bem diz a letra da música Epitáfio: "...devia ter ..." Tempo em que avaliamos o que valeu e o que não valeu a pena termos sacrificado nosso tempo, nossa saúde, nosso bem estar e até mesmo dos nossos sonhos. O aspecto mais importante que venho procurando me adequar é viver este "acerto de contas existencial", sem amargura, com o mínimo possível de drama, de tristeza, procurando ser justo não só com os outros, quanto à repartição das culpas pelo que não deu certo e das vitórias conseguidas, ao mesmo tempo em que vejo o que ainda posso fazer por mim, para mim, sem me sentir egoísta.
Lembrei agora, H, de um trecho da estória do Patinho feio, que ganhei em LP, no 1º ano primário, por ter sido o melhor aluno do colégio. Há um momento em que o patinho, já cisne, volta ao galinheiro, à procura da mãe, e em um diálogo, todo rimado, responde ao galo:
"...isso agora não importa,
pois o que passou passou,
eu aqui estou para ver,
a pata que me chocou."
É isso minha amiga, o patinho tinha entendido e superado as dificuldades e os sofrimentos que viveu, e é esse o aprendizado que devemos fazer para nos desvencilharmos do passado incômodo, tarefa muito difícil para alguns (muito para mim), transmutarmos o que tanto nos machucou e ainda insiste em se manter, através das mágoas, ressentimentos, amarguras e tristezas, abrindo espaço em nossos corações para os doces frutos gerados, a paz que o controle dos desejos alimenta. Não ficarmos na vida que ainda nos resta como um “museu de sofrimentos”.