sexta-feira, 10 de abril de 2009

Quais são as suas máscaras?

Traga-me um ser humano plenamente maduro e equilibrado, que tenha total harmonia no pensamento, no sentimento e nas atitudes, que seja só amor com tudo e com todos, e em todo o momento, que erguerei para ele um altar. Procure-o nos quatro cantos do mundo e não o encontrarás, porque não existe. Somos todos, sem exceção, imaturos, carentes de afeto e de atenção, inseguros, pequenos, seres frágeis que necessitam de luz, de carinho e até mesmo de piedade, por tantas fraquezas.
No entanto, o ser humano, para tentar esconder determinadas facetas de sua personalidade e de seu caráter, ou até mesmo como mecanismo de sobrevivência emocional, cria, consciente e inconscientemente, determinados comportamentos, que são conhecidos na psicologia como máscaras. As máscaras, portanto, são defesas que protegem o indivíduo do meio em que vive, e no teatro da vida, cada um com as suas.
Alguns usam uma ou mais máscaras no emprego, outras em casa, outras nos meios sociais que freqüentam, e algumas máscaras são tão fortemente grudadas que a própria pessoa acredita que é aquilo que aparenta ser para os outros. Há muito covarde com máscara de valentão, utilizando a estratégia de bater o mais rápido possível, para que não percebam que ele, na verdade, é covarde. Há as víboras com sorrisos angelicais; os judas com atitudes de melhores amigos; os interesseiros com caras de solidários; os sorridentes escondendo profundas tristezas; os tiranos com aparência de democratas; os corruptos com discursos de bons samaritanos, e tantos outros tipos, cada um mostrando na aparência o que não é na essência.
Eis aqui um ótimo instrumento para os que querem se conhecer, na busca de ser uma pessoa com mais paz e equilíbrio. Pergunte-se quais são as minhas máscaras?


Gilvan Almeida

sábado, 4 de abril de 2009

Religiões: Budismo

Dentro de uma compreensão de mundo através da filosofia e da espiritualidade, tenho uma identificação maior com as verdades contidas no Budismo e no Cristianismo reencarnacionista. Fui criado em uma família católica, que ia à missa todos os domingos. Até estudei o catecismo e fiz a primeira comunhão, tendo em seguida, durante muitos anos, descartado totalmente a religião, tornando-me ateu. Um dia chegou às minhas mãos uma revista que abordava o Zen-budismo. Li, gostei e me interessei em conhecer mais, tornando-me assim um estudante da vida e da filosofia do grande Mestre Buda. Aproveitando as festividades que os budistas fazem a cada ano, comemorando a data do nascimento de Buda – 8 de abril - coloco este tema no blog, no intuito de homenageá-lo e de informar a respeito desta religião/filosofia.

Gilvan Almeida

O Nascimento de Buda - Hanamatsuri

Segundo reza a tradição, o Buda Shakyamuni nasceu no quarto mês quando no céu surgia a lua cheia de primavera. Deslocando-se para o país de Koliya, sua terra natal, a rainha Mayadevi sentiu as pontadas do parto quando atravessava o Jardim Lumbini. Foi quando pediu para repousar, pois a viagem tinha sido árdua. Ao dobrar o corpo para deitar-se viu adiante uma flor que despontava num ramo. Foi neste instante que as contrações aumentaram e deu nascimento a um menino. Uma chuva de pétalas e néctar caiu naquele momento e dos cantos da terra se fez soar um brado anunciando a boa nova. Chamaram a criança de Sidharta.
Assim, repetindo o acontecimento, os seguidores do budismo do mundo todo comemoram o Vesak, no Japão conhecido por Festa das Flores ou simplesmente Hanamatsuri. Ocasião de grande festividade, em que num altar decorado com fIores a imagem do Buda Menino é devidamente instalado. Aqueles que pretendem homenageá-lo, dirigem-se até o altar, e numa concha recolhem chá adocicado que é derramado sobre a cabeça do Buda. Repetem este movimento por três vezes, fazendo pedidos como a realização de sonhos; pedem saúde e proteção. Esta versão popular, muitas vezes é substituída por um motivo filosófico: ao se banhar o Buda, estamos banhando a nós próprios. Assim, purificamos o nosso coração e podemos avaliar a nossa conduta perante a vida.
Uma cerimônia acontece em 8 de abril, dia do nascimento (ou data próxima), com os representantes de inúmeras tradições budistas, saindo em cortejo pelas ruas do Bairro da Liberdade - em se tratando do município de São Paulo. Então, um andor com a imagem do Buda Menino é posto nas costas de um elefante branco. Crianças vestidas como os pequenos do Nepal, onde Buda nasceu, simulam puxar o carro em que vai o elefante. Atrás os monges de diversas tradições reúnem-se para acompanhar o cortejo. Encerra-se com grande entusiasmo, principalmente com a oportunidade de comemorar o nascimento do Ser lluminado. Não apenas daquele, mas de sua natureza em todos os seres vivos.


Budismo

É uma religião e filosofia baseada nos ensinamentos deixados por Sidarta Gautama, ou Sakyamuni (o sábio do clã dos Sakya), o Buda histórico, que viveu aproximadamente entre 563 e 483 a.C. no Nepal. De lá o budismo se espalhou através da Índia, Ásia, Ásia Central, Tibete, Sri Lanka (antigo Ceilão), Sudeste Asiático como também para países do Leste Asiático, incluindo China, Myanmar, Coréia, Vietnã e Japão. Hoje o budismo se encontra em quase todos os países do mundo, amplamente divulgado pelas diferentes escolas budistas, e conta com cerca de 376 milhões de seguidores.

Ensinamentos e doutrina

Ao contrário do pensamento comum, o budismo não é uma religião, pois não existe um deus criador, não existem dogmas e nem proselitismo, porém também não seria correto denominá-la apenas como uma filosofia, pois aborda muito mais do que uma mera absorção intelectual. O Budismo não tem uma definição, tendo aquela que qualquer praticante lhe queira atribuir, contudo poderemos denominá-la de caminho de crescimento espiritual, através dos ensinamentos dos Buddhas.
Os ensinamentos básicos do budismo são: evitar o mal, fazer o bem e cultivar a própria mente. O objetivo é o fim do ciclo de sofrimento, samsara, despertando no praticante o entendimento da realidade última - o Nirvana.
O ponto de partida do budismo é a percepção de que o desejo causa inevitavelmente a dor. Deve-se portanto eliminar o desejo para se eliminar a dor. Com a eliminação da dor, se atinge a paz interior, que é sinônimo de felicidade.
A moral budista é baseada nos princípios de preservação da vida e moderação. O treinamento mental foca na disciplina moral (sila), concentração meditativa (samadhi), e sabedoria (prajna).
A base do budismo é a compreensão das Quatro Nobres Verdades, ligadas à constatação da existência de um sentimento de insatisfação (Dukkha) inerente à própria existência, que pode no entanto ser transcendido através da prática do Nobre Caminho Óctuplo.
Outro conceito importante, que de certa forma sintetiza a cosmovisão budista, é o das três marcas da existência: a insatisfação (Dukkha), a impermanência (Anicca) e a ausência de um "eu" independente (Anatta).
A flor de lótus e a cruz suástica são símbolos do Budismo.

Principais doutrinas - As Quatro Nobres Verdades

Um dos principais ensinamentos do Buda é aquele que é o conhecido como as Quatro Nobres Verdades. Ele constitui a base de todas as escolas budistas:
1. A primeira nobre verdade: "(...) esta é a nobre verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que queremos é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.(...)"
2. A segunda nobre verdade: "(...) esta é a nobre verdade da origem do sofrimento: é este desejo que conduz a uma renovada existência, acompanhado pela cobiça e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto é, o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por não ser/existir.(...)"
3. A terceira nobre verdade: "(...) esta é a nobre verdade da cessação do sofrimento: é o desaparecimento e cessação sem deixar vestígios daquele mesmo desejo, o abandono e renúncia a ele, a libertação dele, a independência dele.(...)"
4. A quarta nobre verdade: "(...) esta é a nobre verdade do caminho que conduz à cessação do sofrimento: é este Nobre Caminho Óctuplo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta.(...)"

O Nobre Caminho Óctuplo

Tem sido sugerido que a forma de exposição da doutrina das "Quatro Nobres Verdades" segue um padrão que se assemelha ao do diagnóstico de uma doença: depois de ter apontado as origens do mal, o Buda mostrou um remédio que leva à cessação desse mal. Esse "remédio" é conhecido como o "Nobre Caminho Óctuplo" (em sânscrito: Astingika-Marga), e deve ser adotado pelos budistas. Consiste em:
1. Visão ou Entendimento correto: "(...) E o que é o entendimento correto? Compreensão do sofrimento, compreensão da origem do sofrimento, compreensão da cessação do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento. A isto se chama entendimento correto.(...)"
2. Intenção ou Pensamento correto: "(...) E o que é pensamento correto? O pensamento de renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade. A isto se chama pensamento correto.(...)"
3. Palavra ou Linguagem correta: "(...) E o que é a linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira e da linguagem frívola. A isto se chama linguagem correta.(...)"
4. Atividade ou Ação correta: "(...) E o que é ação correta? Abster-se de destruir a vida, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria. A isto se chama de ação correta.(...)"
5. Modo de vida correto: "(..) E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto.(...)"
6. Esforço correto: "(...) E o que é esforço correto? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu gera desejo para que não surjam estados ruins e prejudiciais que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (ii) Ele gera desejo em abandonar estados ruins e prejudiciais que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iii) Ele gera desejo para que surjam estados benéficos que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iv) Ele gera desejo para a continuidade, o não desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realização através do desenvolvimento de estados benéficos que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. A isto se denomina esforço correto.(...)"
7. Atenção correta: "(...) E o que é atenção plena correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu permanece focado no corpo como um corpo - ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina atenção plena correta.(...)"
8. Concentração correta: "(...) E o que é concentração correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. (ii) Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. (iii) Abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ (iv) Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas. A isto se denomina concentração correta."

O Budismo no Brasil tem características singulares. O país abriga a maior colônia estrangeira de japoneses e descendentes, e essa comunidade nipônica trouxe consigo uma variedade de sacerdotes e instrutores budistas, em distribuição significativamente diferente da que existe no Japão. No entanto o budismo não é tão difundido entre descendentes de japoneses no Brasil que em sua maioria são católicos. As escolas ligadas à Nitiren alcançaram enorme difusão, inclusive a Soka Gakkai e a HBS. O Budismo mais tradicional é representado principalmente pelas escolas tibetanas, pelo Soto Zen, Theravada e pelo Budismo Terra Pura. Não se pode deixar de mencionar também a enorme presença do Budismo Tibetano através de inúmeros centros das tradicionais escolas do Vajrayana.
Fonte: Wikipédia

sábado, 28 de março de 2009

Indicação de livro

Escrevi este texto em 2006 e postei no antigo blog. Ano passado foi lançado o filme com o mesmo nome, e muito bom também. Na Thenny vídeo tem.

Gilvan Almeida



Fazia tempo que eu não me apaixonava por um livro. Recentemente reencontrei-me com aquele sabor infanto-juvenil de viajar na história, dentro de uma temática que sempre gostei: a cultura árabe. Sentia a cada dia uma sede constante de ler, buscando um tempo entre minhas atividades cotidianas para prosseguir a leitura.
O livro é “O caçador de pipas”, de Khaled Hosseini, escritor nascido no Afeganistão, que, de forma cativante e envolvente, nos conduz, através da grande amizade de duas crianças, pela história de seu país, desde a queda da monarquia através de um golpe de Estado, passando pela invasão e posterior expulsão dos russos, pela tomada do poder pelos talibans, até a invasão do país pelos Estados Unidos, após os atentados do World Trade Center, e a situação atual.
Gostei muito de conhecer alguns detalhes da cultura do povo afegão que eu não conhecia, como seus valores morais, éticos e espirituais, de honra e honestidade, solidariedade, amizade e zelo pela família, detalhes estes que a imprensa ocidental, grande parte dela manipulada pelos Estados Unidos, deliberadamente não nos mostra, pois o que interessa é mostrar os povos árabes e mulçumanos como terroristas e bárbaros, pois assim, fazendo nossos corações e mentes, fica mais fácil para os “donos do mundo” continuarem fazendo as barbaridades e atrocidades que fazem atualmente no Líbano, Iraque, Palestina e no próprio Afeganistão.
Isabel Allende, escritor chilena que admiro, fez o seguinte comentário sobre esse livro: “Esta é uma daquelas histórias inesquecíveis, que permanecem na nossa memória por anos a fio. Todos os grandes temas da literatura e da vida são o material com que é tecido este romance extraordinário: amor, honra, culpa, medo, redenção”.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Medicina - produto de consumo

“O sistema médico cria incessantemente novas necessidades terapêuticas. Mas quanto maior a oferta de saúde, mais as pessoas crêem que têm problemas, necessidades, doenças. Elas exigem que o progresso supere a velhice, a dor e a morte. Isso equivale à própria negação da condição humana”. Ivan Ilich

O capitalismo cria continuamente novos produtos e junto com eles a necessidade de consumi-los, colocada em nossas cabeças, desde a infância, através de maciças campanhas publicitárias. Assim surgem novos alimentos, produtos eletrônicos e de informática, carros, e também medicamentos, exames sofisticados, e outros, que nos fazem acreditar que para vivermos melhor e sermos mais felizes, precisamos comprá-los, tê-los, consumi-los.
É vergonhosa e criminosa a dominação que a indústria médico-farmacêutica multinacional submete os países, especialmente os mais pobres e os emergentes, associada às grandes redes da mídia, especialmente a televisiva, vendendo-nos produtos mágicos, soluções milagrosas, pílulas da felicidade, exames redentores, como se para ter mais saúde necessitemos apenas de meios diagnósticos sofisticados e drogas milagrosas, e esses "produtos" passam a fazer parte do sonho de consumo da população. Observem a quantidade de artigos e temas de capas sobre saúde curativa e novas terapêuticas que a revista Veja coloca semanalmente, bem como as reportagens que o Fantástico mostra todos os domingos sobre os mesmos temas. Raramente abordam a Medicina Preventiva e a Educação em Saúde, que efetivamente são as responsáveis, quando fazem parte da política Nacional de Saúde de uma nação, pela elevação dos níveis de saúde de um povo. Por que isto? Porque a medicina Preventiva não dá lucro para o capitalismo médico e nem rende votos aos políticos governantes como a medicina curativa com seus grandes hospitais e sofisticados centros de diagnósticos rende.
Beneficiam-se desse sistema tanto as multinacionais quanto as classes dominantes pois o povo que não tem consciência de seus direitos e do que realmente proporciona melhor qualidade de vida e saúde, como saneamento básico, água potável, educação, trabalho e salários dignos, moradia adequada, lazer, mais fácil é de ser dominado.
Concluo com este pensamento do filósofo Voltaire, que captou uma verdade já meio esquecida, pois também vejo que a medicina atual pouco tempo tem dado para a ação curativa da natureza, que Samuel Hahnemann, criador da Homeopatia, cita em seus escritos como a Vix medicatrix naturae:

“A arte da medicina consiste em distrair o paciente enquanto a Natureza cuida da doença”. Voltaire

Gilvan Almeida

sábado, 14 de março de 2009

Estatuto do Homem

Para mim, o Estatuto do Homem é a obra prima de Thiago de Mello, um dos maiores poetas vivos, por quem tenho grande admiração.

Gilvan Almeida



Estatuto do homem - ato institucional permanente

por Thiago de Mello

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converterem-se em manhãs de domingo.

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrirem-se dentro da sombra e que as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV

Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único

O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V

Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio, nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI

Fica estabelecido, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías. O lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII

Por decreto irrevogável, fica estabelecido o reinado permanente da justiça, da claridade e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que, sobretudo, tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa, a qualquer hora da vida, o uso do traje branco.

Artigo XI

Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que, por isso, é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido. Tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou. Artigo final Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio e a sua morada será sempre o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964



quinta-feira, 5 de março de 2009

O Livro dos Livros - Kitab-Ul-Kutub

Georges Bourdoukan escreve na revista Caros Amigos, que considero a melhor revista brasileira da atualidade, por seu caráter independente e democrático, sem rabo preso a partidos, governos ou oposições. Ainda não havia ouvido falar ou lido nada a respeito do Kitab-Ul-Kutub, o Livro dos Livros, e achei muito interessante o artigo "O Gafanhoto", que Bourdoukan publicou em sua coluna na Caros Amigos, n.º 85, ano 2004. Procurei seu Blog e de lá trouxe o artigo "O sentido da Vida", também referente ao Livro.

Gilvan Almeida


O GAFANHOTO

Conta-se, mas Allah sabe mais, que há muitos e muitos anos vivia no oásis de Bukra um povo cuja bondade nem o tempo conseguia medir. Esse povo era guardião do Kitab-ul-Kutub (Livro dos Livros) que deveria servir de guia para a humanidade e de forma alguma poderia cair em mãos erradas, sob o risco de despertar o Incontrolável. Na capa, letras circundavam a figura de um gafanhoto onde se lia:

"Ser humano é entender que a

Diversidade leva à unidade,

Que a unidade leva à solidariedade,

Que a solidariedade leva à igualdade,

Que a igualdade leva à liberdade,

Que a liberdade leva à diversidade."

Nas páginas internas, desenhos de animais vinham acompanhados de parábolas. A do cavalo dizia: "Vivemos num eterno círculo, onde as retas não têm fim"; a do camelo apregoava: "Impossível e nunca são palavras que não devem ser pronunciadas porque a natureza humana não suporta limites"; a da gazela ensinava: "A sabedoria é como a água, quem não tem sede não sente prazer em beber"; a da águia alertava: "Nenhuma coisa pode ser vista se não se souber como vê-la"; a do touro lamentava: "Quem pensa somente no futuro é um insensato; afinal, o que o futuro lhe trouxe?"; a do escorpião instruía: "Fuja do hábito ou ele acabará anulando sua vida"; a da serpente proclamava: "Imortal, a humanidade jamais terá fim, pois Deus precisa do homem para existir".

Na página central, ao lado da imagem do gafanhoto, um texto esclarecia: "O gafanhoto reúne a natureza e a forma dos sete viventes primordiais. Tem a cabeça do cavalo, o pescoço do touro, as asas da águia, os pés do camelo, a cauda da serpente, o ventre do escorpião e os chifres da gazela. Se você chegou até aqui e não entendeu a mensagem, não prossiga. Observe e aprenda que os animais são mais generosos que os homens, pois nunca se viu um leão escravo de outro leão, nem cavalo de outro cavalo". Não se sabe o que aconteceu com o povo de Bukra nem com o livro. Beduínos da tribo dos Bani-Nujum deixaram relatos de que eles teriam se ocultado para proteger o livro do Al-Dajal, trazido pelo vento norte. E que um dia reapareceriam para que a humanidade pudesse entender o significado do círculo.

O SENTIDO DA VIDA

No Oásis de Bukra dizem que somos imortais. Que essa é a razão do sentido da vida. E quem tem dúvidas que consulte o Kitab-ul-Kutub. A cada linha do Livro dos Livros um novo mundo se abre.É um livro único, definitivo. Nenhuma palavra superficial, nenhuma linha inútil, nenhuma página dispensável. Até mesmo para a questão que sempre intrigou a humanidade a resposta é clara e concisa. “O sentido da vida é a liberdade plena. Que você só vai alcançá-la quando se libertar do invólucro. O invólucro é o seu corpo. À liberdade do invólucro dá-se erroneamente o nome de morte. São dois cordões umbilicais que acompanham o vivente. Quando ele chega e quando parte. Um é visível, o outro também é, mas poucos conseguem vê-lo. Não se esqueça que o pior cego é aquele que vê, mas não enxerga”. Não sei se todos concordam, mas o que posso dizer é que as três mil e seiscentas páginas que consultei (não consegui chegar ao final do livro, pois me pareceu que o número de páginas é infinito) me transportaram para lugares incríveis que jamais havia sequer imaginado. Espero um dia conseguir terminá-lo, mas creio que isso somente será possível quando atingir a imortalidade. Ao fechar o Livro uma página ficou dobrada. Ao reabri-lo uma frase saltou aos meus olhos:

“Um mudo sensato vale mais do que um tolo que fala”...

Georges Bourdoukan é jornalista e escritor, autor de A incrível e fascinante história do capitão mouro, O peregrino, Vozes do deserto e O apocalipse.

Blog: http://blogdobourdoukan.blogspot.com/

Revista Caros Amigos: http://carosamigos.terra.com.br/

domingo, 1 de março de 2009

Fim do túnel


Vejo que o sofrer faz parte da condição de ser humano (assim como a possibilidade da Paz e do Amor). Alguns apenas adoecem, sofrem, e quando se curam, não tiram uma lição das dores que vivenciaram. Outros aprendem algo, crescem, transformam-se, amadurecem, afinam-se em sentimentos e percepções, enxergam as causas do adoecer e procuram uma nova forma de viver.
Quase sempre, durante a dor, precisamos de apoio, de ouvidos pacientes e compreensivos, aliados a uma palavra terna e amiga. É bom acreditar que tudo neste mundo passa e, como um Mestre disse, "pra tudo neste mundo há um jeito". Encontrei hoje esta imagem no site Varal de idéias, do amigo Marcos Afonso, que me fez pensar nisto que escrevi.
Saúde e felicidade a todos.
abs
Gilvan Almeida