quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Grandes escritores I : Fernando Pessoa

Minha mãe me ensinou a ter e a sempre cultivar a paixão pelos livros. Enquanto universitária do Curso de Letras da UFAC, ela foi me apresentando os livros que ia lendo e eu, iniciando a adolescência, ia me deixando “contagiar” pelo amor que ela tinha pela literatura. O sentimento que me envolve ao ler um bom livro gera em mim um estado semelhante a uma paixão, fico pensando, envolvido, procurando tempo para ler, saboreando cada página e deixando a mente e o coração livres para se manifestarem conforme a história me conduz. É uma espécie de amor, de prazer, onde a concentração e a entrega me transportam por viagens a lugares, povos e culturas distantes, sentimentos e memórias do que já vivi, do que aspiro viver e, até mesmo, trazendo à tona saudades não sei do quê ou de quem. É muito bom encontrar escrito algo que penso e sinto semelhante, o que muitas vezes me alivia por ver que, por mais estranho que seja, tem mais alguém que vê da mesma forma. Quando gosto de um livro tenho por hábito procurar ler os outros daquele autor. Já fiz assim com José de Alencar, José Lins do Rego, Machado de Assis, Albert Camus, Gabriel Garcia Marques, Clarice Lispector, Eça de Queiroz, Rainer Maria Rilke, Alexandre Dumas, Jorge Amado, Antônio Callado, Vitor Hugo, Agatha Cristie, Lobsang Rampa, Manoel Puig e outros.
Recentemente, li o texto Antropofagia, de Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”, que diz assim: “Para comer meus próprios semelhantes, eis-me sentado à mesa”, escreveu Augusto dos Anjos (“Eu”, 1912, Revista de Antropofagia 1). ' Eu escrevo antropofagicamente: quero que me devorem. Eu leio antropofagicamente: quero devorar aquele que escreveu. Nietzsche sentia o mesmo e disse que só amava os livros escritos com sangue. Como na Eucaristia. A eucaristia é um ritual antropofágico. “Esse pão é o meu corpo; esse vinho é o meu sangue. Comei. Bebei.” Literatura é antropofagia, o que está de acordo com a teologia do evangelho de João, que a afirma que a Palavra é igual à carne. ’ E eu, que nem me imaginava antropófago, deliciei-me ao ver que a minha tendência a “devorar” autores e suas obras também acontece com muitas outras pessoas.
Meus amores literários sempre foram por obras escritas em prosa. Não tinha paciência, sensibilidade e compreensão para escritos em verso, até me encontrar, recentemente, de forma mais intensa, com o escritor Fernando Pessoa, minha atual paixão. Falando isto a um amigo, ele me disse: “você ainda não tinha suficiente maturidade intelectual e sentimental para penetrar na alma e no coração da poesia”. Já gostava de algumas poesias dele, recitadas pela cantora Maria Betânia em alguns shows; lidas em mensagens e sites na internet e também através de um CD, A música em Pessoa, em que musicaram algumas poesias dele, e que são cantadas por Nana Caymmi, Tom Jobim, Marcos Nanini e outros. Agora, estou definitivamente conquistado. Li o livro O Eu profundo e os outros Eus e acredito ter chegado mais perto da alma e do coração do poeta, e pude sentir mais a genialidade de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Muitas vezes uma frase de 5 ou 6 palavras me fazia parar a leitura para refletir, buscar os sentimentos do autor, e também os meus, envolvidos no que ele estava querendo dizer, e entender onde, como e por quê me tocavam. Gosto de escritores que me desafiam, que me tiram da inércia de sentimentos e da mesmice intelectual, e dão um “nó” na minha compreensão, além de estilhaçar as minhas convicções e paradigmas, e Pessoa veio se unir a outros que fazem isto comigo, especialmente Kafka, Camus, Gabriel Garcia Marques, George Orwell, Erasmo de Roterdã, Machado de Assis, Clarice Lispector, Rainer Rilke, Arthur Rimbaud.
Adquiri na I Bienal da Floresta do livro e da leitura as Poesias Completas de Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, os três principais heterônimos de Fernando Pessoa, e estou agora ampliando meus conhecimentos sobre o universo deste Mestre da palavra. Deixo-os com esta poesia dele, que foi a primeira que gostei, na voz da Betânia, na década de 70, e que só recentemente soube do nome, o que me fez gostar mais ainda:

EROS E PSIQUE

Conta a lenda que dormia
uma Princesa encantada
a quem só despertaria
um Infante, que viria
de além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
vencer o mal e o bem,
antes que, já libertado,
deixasse o caminho errado
por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
se espera, dormindo espera,
sonha em morte a sua vida,
e orna-lhe a fronte esquecida,
verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
sem saber que intuito tem,
rompe o caminho fadado,
ele dela é ignorado,
ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino,
ela dormindo encantada,
ele buscando-a sem tino,
pelo processo divino
que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
tudo pela estrada fora,
e falso, ele vem seguro,
e vencendo estrada e muro,
chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
a cabeça, em maresia,
ergue a mão, e encontra hera,
e vê que ele mesmo era
a Princesa que dormia.
Fernando Pessoa – Cronologia
http://www.insite.com.br/art/pessoa/

13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa.
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa.
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de um "Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua". Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 – Aparece “Mensagem”, seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.

2 comentários:

Sanderson Silva de Moura disse...

Caro Gilvan:

Gostei muito do texto.

Trouxe boas reflexões.

Realmente Fernando Pessoa é um Mestre da Palavra.

Abraços


Sanderson Moura

Marilyn disse...

Gilvan,

Tenha andado meio distante da NET por esses dias, mas seu blog continua leitura obrigatória!!!
Amei o siginificado da origem do dia dia dos médicos... Sempre é bom saber o signicado e origem das coisas, a não ser quando somos envolvidos pela emoção. E aí, pouca coisa interessa a não ser viver inteiramente.