sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Cada um ser como é.

"Eu permito a todos ser como quiserem e a mim como devo ser."
Chico Xavier

Por frases como esta é que Chico Xavier tem um lugar reservado em meu coração. Gosto muito de pessoas que pensam semelhante e procuro me espelhar nelas, buscando aceitar a todos do jeito que são. Sei que é uma luta, pois é tentador criticar, julgar, difamar, condenar, tripudiar em cima da vida alheia. Reconheço a prática da plena aceitação do próximo, que, além de Chico, outros grandes Mestres também praticaram, como passo fundamental para o acolhimento verdadeiro que todo ser humano precisa. O verdadeiro colo do coração. Procuro me colocar no lugar: sinto-me tão bem quando sou aceito, do jeito que sou. Conheço tanta gente infeliz porque não vive o que o seu coração diz, e passa toda uma vida sendo fantoche ou marionete de alguém.
Doeu receber estas palavras de uma amiga: “(...) Tenho tanto medo de ser eu, que finjo ser outra (...)” Pensei tanta coisa, especialmente por conhecer a história dela e vê-la aprisionada, não podendo ser ela mesma, porque alguém não permite. E ela, por motivos que não tenho o direito de julgar, aceita a escravidão e renuncia a liberdade. Assim, há anos, sacrifica-se em vida, como um pássaro com a asa quebrada, presa em gaiola invisível, submetendo-se, humilhando-se, e feito uma condenada sem crime, oferecendo o pescoço diariamente ao algoz.
Às vezes, parece que ouço o pensamento dela, a vagar de dúvida em dúvida, de tristeza em tristeza, questionando-se o que poderia ter sido:
-se tivesse feito o que queria,
-se tivesse vivido como seu coração dizia,
-se tivesse permitido a si mesma, viver a vida que sempre sonhou.
Também consigo perceber seus doces sentimentos de menina frágil, escondidos por trás de máscaras de dureza, que criou como mecanismo de sobrevivência emocional, e aprendeu a vestir diariamente.
E assim o tempo passa, e todo um potencial de vida sendo desperdiçado.
Frente a isso, não consigo deixar de me olhar e examinar até onde eu represento papéis que alguns me exigem, alimentando o processo que faz a humanidade ser “escrava de convenções”, e o quanto que já consigo ser eu mesmo, independente no meu íntimo.


Gilvan Almeida

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Feliz 2012 !!!

Esta imagem me disse muito. Quem é que ainda não se sentiu assim na vida?
Que 2012 traga a todos nós mais:
-Saúde,
-Alegrias,
-Amigos verdadeiros;
-Discernimento para identificar os sonhos possíveis;
-Força para continuar a luta de servir e ser feliz.


abraços


Gilvan Almeida

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal

FELIZ NATAL !!!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Mulheres fora-de-época: Anaís Nin

Vocês conhecem a escritora Anaís Nin? Mais uma mulher pouco adaptada à sua época, tipo Frida Kahlo, Gertrude Stein, Lou Andreas-Salomé, Florbela Espanca e outras, que viveram incompreendidas e discriminadas por muitos dos seus contemporâneos, por terem se negado a usar a roupagem convencional vigente, especialmente, por dizerem e viverem verdades que desmascaravam a hipocrisia social. E o que mais feria é que elas eram competentes nas artes que praticavam. Vejam, a seguir, algumas palavras escritas por ela.
Tem um filme muito bom sobre o período em que Anaís foi amante do escritor Henry Miller: Henry & June, baseado no diário dela.


Gilvan Almeida

-“Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança.
   Chorei porque não podia mais acreditar e adoro acreditar.
   Chorei porque daqui em diante chorarei menos.
   Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela.”
-"O amor nunca morre de morte natural. Ele morre porque nós não sabemos como renovar a sua fonte.  Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho."
-"A única anomalia é a incapacidade de amar."
-"Pessoas vivendo intensamente não têm medo da morte."
-“Eu escolho
   um homem
   que não duvide
   de minha coragem,
   que não
   me acredite
   inocente,
   que tenha
   a coragem
   de me tratar como
   uma mulher.”
-"E chegou o dia em que o risco de permanecer apertada no botão era mais doloroso que o risco necessário para florir."
-"O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele. Enfrentei   meus sentimentos.
A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa. Mas não quero viver comigo mesma. Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal.
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente.
Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas. Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. Eu estava esperando. Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro. Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções.
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar."
-“A origem da mentira está na imagem idealizada que temos de nós próprios e que desejamos impor aos outros.”
-"A vida se encolhe ou se expande proporcionalmente à coragem de cada um."

Anaïs Nin (21 de fevereiro de 1903, Neuilly, perto de Paris - 14 de janeiro de 1977, Los Angeles) batizada Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, foi uma autora nascida na França, filha do compositor Joaquin Nin, cubano criado na Espanha e Rosa Culmell y Vigaraud,de origens cubana, francesa e dinamarquesa. Anaïs Nin tornou-se famosa pela publicação de diários pessoais, que medem um período de quarenta anos, começando quando tinha doze anos. (...)
Seus romances e narrativas, impregnados de conteúdo erótico foram profundamente influenciados pela obra de James Joyce e a psicanálise. Dentre suas obras destaca-se Delta de Vênus (1977), traduzido para todas as línguas ocidentais, aclamado pela crítica americana e européia.


Obras:
• A Casa do Incesto
• Delta de Vênus
• Em busca de um homem sensível
• Henry & June
• Incesto
• Passarinhos
• Pequenos Pássaros
• Uma espiã na casa do amor

Fonte da breve biografia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ana%C3%AFs_Nin

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Atitude contra abuso da Vivo

Frente ao que considero um abuso das operadoras de telefonia, tomei uma atitude em defesa de meu bem-estar e manutenção da minha privacidade. Eu já não estava agüentando mais as telefonistas da operadora Vivo ligando diversas vezes ao dia, interferindo em meu trabalho, lazer e até em meu repouso. Sou associado ao PROTESTE, uma associação independente de defesa do consumidor (www.proteste.org.br). Procurei o Departamento jurídico do órgão, que me orientou a entrar no site da Vivo, e encaminhar um e-mail, informando que não desejava receber ligações da empresa, dando um prazo de 5 dias para que não mais me ligassem. Passados os 5 dias, se continuassem ligando, que eu fizesse cópia do e-mail, juntasse a documentos pessoais e procurasse o Juizado de Pequenas Causas e entrasse com ação de Danos Morais contra a empresa.
Fiz isso dia 09 de dezembro. Não sei se estou cantando vitória antes do tempo.... não ligaram mais.
Então, se você está tendo sua vida invadida pelas operadoras de telefonia e está incomodado(a), tome uma atitude.

Gilvan Almeida

E-mail à operadora VIVO:

Sr(a) responsável pelo telemarketing/diretoria da Vivo:

Comunico-lhes o meu profundo desagrado e incômodo quanto às frequentes e indesejadas ligações que o telemarketing desta empresa (atualmente pelo fone 01174500833) vem fazendo insistentemente para meu celular, atrapalhando minha vida profissional e pessoal, deixando-me irritado.
No resguardo da minha privacidade e do meu bem estar, solicito-lhes que retirem urgentemente o número do meu celular deste serviço. Aguardarei cinco dias, conforme orientação da PROTESTE, órgão de defesa do consumidor. Caso não seja atendido, tomarei as medidas jurídicas cabíveis.
atenciosamente

Gilvan Rodrigues de Almeida

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Onde moram as certezas?

"Somos assim. Sonhamos o vôo, mas tememos as alturas. Para
voar, é preciso ter coragem para enfrentar o
terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo
acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a
ausência de certezas. Mas é isto que tememos:
o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por
gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas
moram."
Rubem Alves

Encaminhei este bonito poema de Rubem Alves para alguns amigos e amigas. Interessante a repercussão, que aqui compartilho.
Mexeu no meu paiol.
Pode ser que sirva também pra vocês.
Gilvan Almeida

-“Muito especial. E, como estou num momento tão difícil, me sinto engaiolada, com medo do medo de voar! Valeu!”
-“Excelente! E o pior é guando essa gaiola é dourada...”
-“É verdade, buscamos sempre os parâmetros para nos sentir enquadrados.... a liberdade do vôo nos deixa sem parâmetro, portanto inseguros....”
-“Vixe! Amigo, Isso faz o maior rebuliço cá no meu paiol, também rssss.
Tenho esse trecho (e alguns outros) bem na parede da estante do escritório... é um barato... quando tô muito "aterrada" dou uma olhadela com o rabo do olho.
Quando atendia jovens gostava um tanto de lidar com textos, Esse texto, e o milho de pipoca, do Rubem dava pano pra manga.”
-“MEU AMIGO..RESOLVEU CUTUCAR ONÇA COM VARA CURTA?? KKKK, parece que somos tão parecidos...snif,snif...eu, vc e o resto do mundo.
-“É, isso acontece...! E, quando ousamos um vôo... às vezes as asas quebram,
mas ainda resta a vassoura, no caso de ser mulher! rs.”
-“ Yes. Mexeu na minha sombra, amigo... rsrs
-“Vixi, maninho... o meu paiol tá pegando fogo. E eu quero tanto a liberdade...”
-“...e as chaves pra abrir "as gaiolas"?????”
-“Quem me acorrenta e me atormenta é, essa ausência de certeza...”
-“Lindo o texto, mas, graças a Deus, meu vazio, neste momento, está preenchido! RS”
-“Eu fiz o Processo Hoffman. Então, aquele buraco que eu sentia dentro de mim, o vazio inexplicável que habitava meu interior, desapareceu ... Estou plena! Mudei. Não sei explicar o quê se transformou em mim, mas não sou a mesma de antes ...”
-“Nossa ... como dói ler um vôo desta forma.
Não entendo como vazio .. o que vejo é imensidão ... de possibilidades ... inclusive de não conseguir voar adequadamente e cair!
Sim ... a queda é vazio. É estar preso pelo medo de tentar voar novamente.
Mas o vôo é imensidão .. quem já voou um dia não pode desconsiderar o que é o encontro com o vento ..
Às vezes penso que o vento é a grande paixão da liberdade .. voar é a liberdade para sentir o vento ...o que não é chão ... mas é horizonte ...
sim, posso dizer que sou apaixonada pelo horizonte ... pelo sol que ele me promete luz todo dia. Não tenho chamego com vazio .. gaiolas .. meu coração nasceu para voar .. e meu espírito é vento .. vamos voar!”
-“somos assim mesmo, mas para não ser tão assim .... Imagino que no meu mundinho vivo em gaiolas aladas.”
-“Eu gostei muito de ler isso. Quando viajo só para um lugar desconhecido eu tenho essa sensação. A paixão é novidade mas depois desaparece porque é enfurnada na gaiola da rotina e das certezas. As pessoas tendem a construir gaiolas umas para as outras. E também lembrei de Clarice Lispector quando disse que tinha três pernas e não conseguia se desprender da terceira perna porque esta a fazia um ser reconhecível e encontrável. Mas a impedia de correr livre com as duas pernas...”

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A moça tecelã

Há um tempo uma amiga me indicou este conto da Marina Colasanti. Hoje consegui ler. Gostei muito. Um anti-conto-de-fadas, do príncipe que se transformou em sapo. Revelação metafórica da vida sofrida de muitas mulheres, embora saibamos que também há princesas que se transformam em sapas.

Gilvan Almeida

PS: Fico feliz quando encontro uma imagem que "diz" o conteúdo do texto. Uma amiga me presenteou esta bela pintura de Arte Naif da pintora argentina Pilar Sala. Casamento perfeito.
Veja mais desta pintora em: http://www.artenaif.com/

A moça tecelã
Marina Colasanti

"Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta. Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.
Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.
— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte."

Marina Colasanti (Asmara, 26 de setembro de 1937) é uma escritora e jornalista ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritréia. Ainda criança sua família voltou para a Itália de onde emigram para o Brasil com a eclosão da Segunda Guerra Mundial.
No Brasil estudou Belas-Artes e trabalhou como jornalista, tendo ainda traduzido importantes textos da literatura italiana. Como escritora, publicou 33 livros, entre contos, poesia, prosa, literatura infantil e infanto-juvenil.
Uma ideia toda azul é um livro seu de contos que ganhou o prêmio O Melhor para o Jovem, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Em 2010, recebeu o Prêmio Jabuti pelo livro Passageira em trânsito.                                               Fonte Wikipedia

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Palavras de filmes

Costumo ler grifando os momentos mais marcantes nos livros, para ler depois, realimentar-me de algo que me fez bem ou que me despertou uma nova compreensão. Da mesma forma faço quando vejo filmes em casa. Se há palavras que me tocam o coração, paro o filme, repito a cena e anoto. Tenho um arquivo no computador chamado Palavras de Filmes. De vez em quando leio, e às vezes, encontro palavras que também servem para amigos. Compartilho com vocês.
Gilvan Almeida

P.S.: Agradeço a colaboração dos leitores com novas palavras de filmes para este post e, consequentemente, com meu arquivo. O amigo Marcos Afonso me lembrou desta frase simbólica do filme "O advogado do diabo": "A vaidade é o meu pecado predileto". Começaram a chegar mais palavras, então vou dar sequência no post, após o filme número 31.

1. Filme - Tinha que ser você:
O ex dizendo para a ex, no casamento da filha de ambos:
- “ ...(você) sempre soube fazer com que me sentisse um lixo em 30 segundos...”

2. Filme - Elizabeth: a era de ouro.
"...Quando a tempestade irrompe, cada um age conforme sua natureza. Alguns ficam mudos de pavor. Alguns fogem. Alguns se escondem. E alguns abrem as asas como águias e alçam vôo..."

3. Filme - A ponte de San Luiz Rey:
Procurem a cena em que essas palavras são ditas:
-“Agora ele descobriu o segredo do qual não nos recuperamos. O de que mesmo no mais perfeito amor uma das pessoas ama menos do que a outra. Talvez não haja duas pessoas que se amem igualmente.”

4. Vi em um filme que não lembro o nome:
-“Seremos como esses casais dos quais sentimos pena nos restaurantes? Somos os mortos que jantam?”

5. Filme - Encontros e desencontros:
-“Quanto mais você sabe quem é e o que quer, menos deixa que as coisas o perturbem.”

6. Filme - Dragão vermelho:
-"...Nossas cicatrizes têm o poder de nos lembrar que o passado foi real..."

7. Filme - Los Angeles, cidade proibida:
-“Você é um homem político. Tem olhos para as fraquezas humanas, mas não o estômago.”

8. Filme - Chocolate:
-"Não podemos medir nossa bondade pelo que não fazemos, pelo que negamos a nós mesmos, o que resistimos e a quem excluímos. Nossa bondade é medida por aquilo que aceitamos, pelo que criamos e por quem incluímos."

9. Filme - Metrópolis:
-“O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração.”
-“Cabeça e mão querem se juntar, mas eles não têm o coração para fazer isso. Ó mediador, mostre a eles o caminho de um ao outro...”
-“Sou o Consolador, que remove a preocupação, que coloca as mentes cansadas no travesseiro, que abre as portas para o Além.”

10. Filme - O segredo dos seus olhos:
Filme argentino que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010:

1."Como se faz para viver uma vida vazia? Como se faz para viver uma vida cheia de nada?"

2."Não pense mais nisso.
Não pense mais.
Não fique mais imaginando, imaginando,
pensando no porquê....
no que aconteceu,
no que não aconteceu ...
Senão vai ter mil passados e nenhum futuro.
Não pense mais.
Não vale a pena."

11. Filme - “Tão Longe, Tão Perto” (“In Weiter Ferne, So Nah!” - 1993)
-“Os olhos são a luz do corpo. Se os olhos forem bons, o corpo será luminoso. Mas se forem maus, o corpo estará em trevas”. É com esta citação de Mateus (VI, 22) que o diretor Wim Wenders inicia o filme.

12. Filme - Blade runner, o caçador de andróides:
-"Pena que esses momentos vão se perder no tempo como lágrimas em uma noite de chuva".

13. Filme - Rapsódia em agosto:
Em uma localidade do Japão, duas amigas idosas se encontram e ficam horas, em companhia uma da outra, em silêncio. Alguém diz:
-“Existem pessoas que ficam silenciosas quando falam.”

14. Filme - A partida:
Pequeno e marcante diálogo:
-“O que é isso?
-Uma pedra-carta. Os antigos, antes da invenção da escrita procuravam uma pedra que expressasse seus sentimentos e a davam aos seus entes queridos. Quem recebia a pedra podia ler os sentimentos do outro pelo peso e textura. Por exemplo, uma pedra lisa era sinal de um coração sereno. Uma pedra áspera, de que a pessoa estava em dificuldades.”

15. Filme - Em minha terra:
-“A verdade é uma mulher. Todos a reconhecem, mas ninguém a conhece.”

16. Filme - Netto e o domador de cavalos
-“Passo meus dias dedicados aos serenos prazeres da contemplação.”
-“A função da memória é a imortalidade.”

17. Filme - Plenty:
-“...Você tem que viver antes de escrever...”

18. Filme - Antes de partir:
-"Encontre a alegria de sua vida."
-"Ele morreu de olhos fechados mas de coração aberto."

19. Filme - Mentiras sinceras:
-“Aqui estou eu, pensando que era feliz ...” (marido traído)

20. Filme - O julgamento do diabo:
-“É bom termos alguém por perto, para nos avisar que não existe atalho para a felicidade.”

21. Filme - Confidencial:
-"Melhor arrependida que curiosa": palavras atribuídas a Marylin Monroe.
-"Minha vida toda eu quis criar um trabalho de arte,
eu cantei, ninguém ouviu,
eu pintei, ninguém olhou..." ( Um dos assassinos diz)
-"Bebida, suicídio para os que não têm coragem."
-"...A vida é dolorosa. É uma experiência que reúne o rico e o pobre. Acho que sou capaz de suportar isso porque transformo o que me fere em arte."

22. Filme - Conversando com Deus:
-"Não se preocupe com os outros. Concentre-se no que você pensa de você."
-"Viver a vida sem expectativas, sem a necessidade de resultados, isso é liberdade."

23. Filme - Bambi 2:
Bambi pergunta ao pai se ele teria medo (em uma determinada situação). O pai responde:
-“Talvez, mas ainda assim eu iria.Um príncipe pode ter medo, mas não pode deixar que o medo o impeça de agir.”

24. Filme - O segredo de Beethoven:
-“A música é o idioma de Deus.”
-“A solidão é minha religião.”

25. Filme - Quase deuses:
-"...Dizem que não se viveu realmente, a não ser que se tenha muitos arrependimentos..."

26. “Comigo a anatomia ficou louca, eu sou todo coração.” Ouvi na TV e, pesquisando, encontrei como autor o cantor e compositor Jorge Mautner.

27. Filme - Herói por acaso:
-“Imagine se todos dissessem a Verdade. Seria a guerra.”

28. Filme - Um lugar para recomeçar:
-“Mais difícil que guardar... é por para fora.”

29. Filme - Poder além da vida:
-“As batalhas que lutamos estão dentro de nós.”
-“As pessoas mais difíceis de serem amadas normalmente são as que mais precisam de amor.”
-“A jornada é que nos traz a felicidade, não o destino.”

30. Filme - Notas sobre um escândalo:
-“Queremos tanto acreditar que achamos nossa outra metade. É preciso coragem para ver o real ao invés do conveniente.”
-“As pessoas sempre confiaram a mim seus segredos, mas a quem confio os meus? A você. Só a você.” Protagonista do filme referindo-se ao seu diário.

31. Filme - A pele:
-"O que você tem que abandonar para se encontrar?"
-"Todo mundo tem uma porta que gostaria de cruzar."

32. Filme - O advogado do diabo:
-"A vaidade é o meu pecado predileto."
-Colaboração do Marcos Afonso.

33. Filme - Clube da luta:
-"Só depois de perder tudo é que ficamos livres para fazer qualquer coisa."
-Colaboração do Nostradamus.

34. Filme - Entrevista com o vampiro:
-"O mal é um ponto de vista."
-Colaboração do Nostradamus.

35. Filme: Diários de motocicleta:
-"Escutei os pés descalços na lama e vi rostos emaciados de fome.
Meu coração era como um pêndulo entre ela e a rua.
Não sei com que força me livrei dos seus olhos,
me safei de seus braços.
Ela ficou, afogando sua dor em lágrimas,
atrás da janela e da chuva."
-Colaboração: Ana Regina.

36. Filme: O jardim secreto:
-"Se você olhar bem, verá que o mundo todo é um jardim!"
-Colaboração: Luana Couto

domingo, 23 de outubro de 2011

Reflexões sobre a maturidade

Maturidade I

Após os 30 anos a maioria das pessoas geralmente já está com a vida direcionada, sentimental e profissionalmente, e já não mais se arrisca a grandes aventuras. Muitos sonhos e esperanças foram abandonados, uns por tentativas e fracassos, outros por desistência de tentar, outros ainda por terem sido vivenciados um tempo e depois vistos que não eram aquilo que se pensava e se queria. Até os 30 vale sonhar que tudo é possível, que com a força e a ousadia da juventude tudo podemos. A partir daí, com base nas experiências vividas, já é preciso uma reavaliação sincera e honesta, das perdas e ganhos, do que foi ilusório e do que foi e continua real; da necessidade de aprimorar e ampliar os conhecimentos visando melhorar a capacidade de trabalho e do cumprimento das responsabilidades que surgiram ao longo do caminho. Esta avaliação da vida traz maturidade e permite o aperfeiçoamento do discernimento na busca do melhor.

Maturidade II

Um momento importante na caminhada na vida acontece quando despertamos para o aprimoramento da verdadeira expressão do nosso pensamento e da nossa palavra, bem como dos nossos sentimentos e atitudes, fortalecendo a coragem, a sensibilidade e a percepção para dizer não quando o coração diz não, e sim quando o coração diz sim; poder dizer a nossa verdade sem medo ou culpa, com respeito e consideração, mas dizer, não mais com aquele jeito infantil e servil de querer agradar a todos, de ser bonitinho(a), obedientezinho(a), bonzinho/boazinha, eternamente com medo de perder o amor das pessoas. Isso, quando conseguido, expressa o nosso grau de maturidade. As pessoas geralmente não respeitam quem só diz sim, as maria-vai-com-as-outras, nem quem só diz não, os ditadores e egocêntricos. Ouse ser você mesmo. Valorize equilibradamente a opinião que as pessoas têm a seu respeito, mas não seja escravo delas, mire-se também no que a sua consciência já lhe diz.

Maturidade III

Ouvi ou li, não lembro onde: “Há pessoas que envelhecem e não amadurecem. Cuidado para que, em sua vida, você não passe do estágio verde para o podre, como algumas frutas, sem amadurecer.” Achei forte. Fiquei pensativo!!?!? Barbas de molho.

Maturidade IV

Não conheço um ser humano plenamente maduro, equilibrado em todos os aspectos da vida. Hoje compreendo que a maturidade é um estado que independe da idade, que não vem simplesmente trazida pela natureza, com o passar do tempo, e que para se chegar nela é preciso uma busca consciente, através do autoconhecimento, do reconhecimento das fragilidades e imaturidades, de constante prática de transformação interior, assumindo cada vez mais responsabilidades consigo e com o próximo. Por este prisma vejo jovens mais maduros que muitos adultos e idosos. Quantas vezes me pego em rebeldias adolescentes fora-de-época. Ou mesmo comportando-me como abandonada criança que suplica, nem sempre silenciosamente, a atenção e o afeto de amigos que se distanciaram.

Maturidade V

Um dos aspectos que faz os seres humanos semelhantes, sejam acreanos, russos, moçambicanos ou tailandeses, é que todos têm problemas. O que nos diferencia é a forma como lidamos com eles, e isto depende essencialmente do grau de maturidade psicológica e emocional de cada um.
Um grande perigo é não ter a devida atenção e acreditar que graves problemas sejam insignificantes, e não agir no tempo, na forma e na intensidade adequadas. Ou o oposto, pegar pequenos problemas e superdimensionar, exagerar emocionalmente, criar um drama e sofrer desnecessariamente. A maturidade dá o discernimento exato para diferenciar um do outro, auxiliando a consciência na tomada de decisão e nas medidas resolutivas, como também na prevenção de novos problemas.

Gilvan Almeida

sábado, 15 de outubro de 2011

Filosofia e Medicina sem Humanidade

“Alexander Mitscherlich forjou a expressão "medicina sem humanidade" para denunciar a ausência da dimensão pessoal do homem doente no âmbito da medicina moderna, cujo triunfo assenta exclusivamente na aplicação dos métodos das ciências naturais e, ultimamente, dos métodos tecnológicos: «O médico deixa de adotar a figura do curandeiro, rodeado do mistério dos seus poderes mágicos, para passar a ser um homem de ciência» (Hans-Georg Gadamer).(...)”
http://cyberbiologiaecybermedicina.blogspot.
com/2008/05/filosofia-e-medicina-sem-humanidade.html

Parece estranho e, ao mesmo tempo é revelador, que vejamos a divulgação e a implantação de treinamentos e ações de humanização do atendimento em saúde. Estranho porque a medicina é uma atividade humana destinada a seres humanos. Por que então humanizar? Revelador porque se está sendo preciso humanizar, significa que em algum período da história a prática médica desumanizou-se. Qual foi esse período? Como e por que aconteceu?.
Desde o início da Faculdade de Medicina voltei-me para a Medicina Social (“medicina de pobre” como uma tia muito querida, jocosamente, dizia, e me chamava médico-pé-de-chinelo). Interessei-me por Saúde Pública e Epidemiologia, áreas de muito pouco interesse dos demais colegas – dos 80 que iniciaram a graduação talvez uns 10 voltaram-se para a Medicina Social. Não tivemos uma disciplina voltada para o estudo da Filosofia Médica, o que hoje considero um absurdo, já que estavam sendo formados profissionais que iriam lidar com algo tão delicado e de tanta responsabilidade quanto a vida humana, sem lhes instrumentalizar com fortes bases éticas, legais, morais, políticas, socioeconômicas e espirituais. O que eu sabia disso aos 22 anos? Hoje entendo melhor a crise existencial que enfrentei no 6º ano da faculdade. Pensei até em desistir de ser médico.
Por iniciativa pessoal, e com o auxílio de alguns colegas, construí uma base de compreensão social, política e econômica, situando-me razoavelmente na conjuntura nacional (em plena ditadura militar) e global, o que fortaleceu minha opção de área de atuação. Conseguia compreender que um povo doente (como também analfabeto) é mais facilmente dominado. E quanto mais compreendia, mais me revoltava com as injustiças sociais.
Na Residência em Medicina Preventiva e Social fortaleci minha visão política e social da profissão, mas a real abordagem filosófica da medicina só encontrei na Especialização em Homeopatia. Em ambas encontrei as respostas que hoje me fazem entender porque a medicina desumanizou-se, e a que interesses ela realmente está servindo.
Conheci o autor Ivan Illich na residência em Medicina Preventiva e Social. Foi “amor médico-ideológico” à primeira vista, de minha parte. Identifiquei-me com sua visão política e social da medicina, especialmente quando expõe a verdadeira face da medicina ocidental e capitalista, que transformou a saúde em objeto de comércio e lucro, bem como quando explica em que pontos a medicina é usada pela classe dominante nas relações de poder, na manutenção da dominação e da exploração dos povos.
É dele esta frase que dá início a este post, onde coloco alguns conceitos filosóficos dele e de outros teóricos, que considero importantes para o norteamento de minha prática médica atual:
“A medicina roubou do ser humano a própria capacidade de olhar-se, de cuidar-se, expropriou-lhe a saúde.”
Gilvan Almeida

-Quando Medicina e filosofia convergem, podem fazer progredir a busca do homem em direção a uma imagem unificada dele mesmo e do mundo; quando divergem, essa imagem fica fragmentada, confusa e mesmo absurda.
Pellegrino & Thomasma (A Philosophical Basis of Medical Practice)

-Medicina, então, é todas as três - ciência, arte e virtude sinérgica, integralmente unidas nas atividades diárias do médico. Desarticular um dos membros dessa tríade dos outros é desmembrar a Medicina - cuja característica essencial é a relação especial que une ao outro. Quando isso acontece, aí pode existir um cientista, um artista ou um prático, mas não um médico.
Edmund Pellegrino (The Anatomy of Clinical Judgments)

-A filosofia da Medicina que procuramos é uma filosofia de uma atividade humana identificável, não uma miscelânea das ciências e artes empregadas pela Medicina. Nós afirmamos que a Medicina não é redutível à biologia, à física, à química, ou à psicologia; nem é apenas o que os médicos fazem ou esperam; nem é simplesmente uma ciência rigorosa ou apenas uma arte de fazer o bem em eventos clínicos. Ao invés, mostramos que Medicina é uma forma única de relacionamento.
Pellegrino & Thomasma (A Philosophical Basis of Medical Practice)

-Uma filosofia da Medicina é necessária: para organizar seus crescentes sucessos; para formar um princípio que integre suas divididas especialidades; para oferecer uma explicação racional e científica de seus métodos; e para descobrir a relação entre os sistemas médicos do Oriente e do Ocidente, de modo que cada um possa funcionar em uma comunidade mundial em expansão.
Pellegrino & Thomasma (A Philosophical Basis of Medical Practice)

-O sucesso da Medicina criou uma tensão: o doutor conhece o seu papel de curador das doenças e "esquece" o seu papel como "cuidador" dos pacientes.
Eric Cassell (The Healer's Art)

-A Medicina sofre de uma abundância de meios e de uma pobreza de finalidades.
Pellegrino & Thomasma (A Philosophical Basis of Medical Practice)

-A ciência não é um valor absoluto a que todos os outros estejam subordinados; ela tropeça quando vai de encontro às normas que consagram e protegem a dignidade humana.
Genival Velloso de França (Flagrantes Médico-Legais)

-No entanto, por um processo curioso e paradoxal, é neste instante de maior progresso e de resultados fantásticos, que a Medicina se apresenta em estado de sobressalto, pois sua ética não acompanhou o mesmo ritmo de suas incontestáveis conquistas.
Genival Velloso de França (Flagrantes Médico-Legais)

-Já sabia que a verdade de hoje pode ser o erro de amanhã... Que toda a Arte Médica estando em constante reformulação e reforma, tudo que é atual e moderno é duvidoso e esconde uma mentira ou um engano que os tempos vão tornar aparentes.
Pedro Nava (1903-1984) (Galo das Trevas)

-A medicalização da sociedade pôs fim à era da morte natural. O homem ocidental perdeu o direito de presidir o ato de morrer.
Ivan Illich (A Expropriação da Saúde)

-Atualmente a dor foi transformada em um problema de economia política.
Ivan Illich (A Expropriação da Saúde)

-Ao colonizar uma cultura tradicional, a civilização moderna transforma a experiência da dor. Retira do sofrimento seu significado íntimo e pessoal e transforma a dor em problema técnico.
Ivan Illich (A Expropriação da Saúde)

-É o ritual médico e seu mito correspondente que transformam a dor, a enfermidade e a morte, experiências essenciais a que cada um deve se acomodar, em uma seqüência de obstáculos que ameaçam o bem-estar e que obrigam cada um a recorrer sem cessar a consumos cuja produção é monopolizada pela instituição médica.
Ivan Illich (A Expropriação da Saúde)

-A Medicina não tem somente funções técnicas: ela constitui-se, entre outros, num sinal de status. Um dos principais objetivos das despesas médicas é produzir satisfações simbólicas que as pessoas apreciam pelo seu preço.
Ivan Illich (A Expropriação da Saúde)

-A política da saúde, como é quase sempre entendida, coloca sistematicamente a melhoria dos cuidados médicos antes dos fatores que permitiriam exercitar e melhorar a capacidade individual de cada um em assumi-la.
Ivan Illich (A Expropriação da Saúde)

-É o volume global dos transportes que entrava a circulação; é o volume global do ensino que impede as crianças de expandirem a sua curiosidade, sua coragem intelectual e sua sensibilidade; é o volume sufocante das informações que ocasiona a confusão e a superficialidade, e é o volume global da medicalização que reduz o nível de saúde.
Ivan Illich (A Expropriação da Saúde)

-O subjetivo não é menos real ou menos importante em Medicina, mas simplesmente um diferente tipo de realidade.
Eric Cassell (The Healer's Art)

-Uma cultura foi dominante sobre todas as outras - a cultura da Medicina científica... A maneira científica de pensar retirou dos doutores em treinamento, a maneira humanística de pensar a respeito de seus pacientes.
Eric Cassell (The Healer's Art)

-Mas, cada vez mais, as respostas são para as patologias, e a patologia não é senão uma parte da doença.
Eric Cassell (The Healer's Art)

-A saúde geral da população não é diretamente dependente dos serviços médicos.
Eric Cassell (The Healer's Art)

-Na medida em que o especialista estreita os limites de seu campo ele, de algum modo, torna-se menos um médico e mais um técnico.
Edmund Pellegrino (The Healing Relationship)

-Estar em boa saúde é poder cair doente, e se recuperar é um luxo biológico.
Georges Canguilhem (O Normal e o Patológico)

-Mais do que a opinião dos médicos, é a apreciação dos pacientes e das idéias dominantes no meio social que determina o que se chama de "doença".
Georges Canguilhem (O Normal e o Patológico)

FONTE: http://www.luizrobertolondres.com.br/ecos/citacoes.asp?tema=12

sábado, 8 de outubro de 2011

Se não for dirigir, beba!

A maioria dos seres humanos nasce dotada de livre-arbítrio, com plenos poderes de se auto-gerenciar em pensamentos, sentimentos e atitudes, mas o processo de adquirir a tão sonhada e, para muitos (incluindo o autor deste texto), utópica liberdade, passa pelo amadurecimento da consciência.
Conscientizar-se é uma atitude que conduz à libertação das amarras da subserviência, de todos os tipos de escravidão, da ignorância e dos medos, e isso nem sempre é de interesse da classe político-empresarial dominante.
Com esta forma de pensar uno-me ao grito libertário de Raul Seixas, na música Sociedade Alternativa, quando ele diz “...faz o que tu queres pois é tudo da lei...”, mas acrescento: “podes fazer contigo o que quiseres, até o limite em que o que tu fazes prejudique a um outro ser humano”.
Infelizmente a humanidade ainda precisa de leis para reger sua convivência social, muitas delas hipócritas, destinadas a não serem cumpridas por quem as faz e seus aliados; outras feitas sob encomenda para legitimar a manutenção da opressão e da dominação econômica e política.
Sabemos dos malefícios do tabaco e do álcool, duas drogas lícitas, dos altos índices de doenças e mortes, e dos prejuízos sociais, que ambos ocasionam. Apesar da regulamentação da propaganda e do uso do tabaco, uma vitória para a saúde pública, quase nada foi feito, até agora, com relação às bebidas alcoólicas.
Compartilho este excelente artigo do Dr. Dioclécio Campos Júnior, em que ele toca e expõe esta ferida social.
Gilvan Almeida

Se não for dirigir, beba!
Dioclécio Campos Júnior
Médico, pesquisador associado da UnB, secretário de Estado da Criança do DF, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria
dicampos@terra.com.br
Brasília, 10/08/2011
A propaganda é a alma do negócio. Sem ela, a timidez dos resultados econômicos desencoraja o empresário. O consumo não avança. As vendas de produtos ficam aquém das metas. O sonho de riqueza não se realiza. A economia perde temperatura. A umidade relativa da moeda diminui. A seca pecuniária desidrata o empreendedor. O mercado torna-se hipotônico. O desemprego ronda o espetáculo. A informalidade rouba a cena dos investidores formais. O dinheiro sai de circulação. Banqueiros perdem o sono. Governos experimentam pesadelo. O povo ‒ massa de manobra de fácil sedução ‒ deixa de consumir por falta de estímulo indutor. Indicadores financeiros perdem robustez. Bolsas de valores encolhem. Bolsos murcham. Sem propaganda, o modelo de sociedade atual não se sustenta. Passa a carecer do equipamento cientificamente concebido para ativar, a qualquer preço, a estratégia que faz confundir consumismo com felicidade. Que ilude para vender. Que engana para deslumbrar. Limites éticos inexistem. Bem-estar da população não conta. Adoecimentos não preocupam, mesmo porque geram emprego, abrem caminho para fortalecer a indústria farmacêutica e outras que tais.

Grande parte dos sérios problemas que põem em risco a vida dos cidadãos é efeito adverso de mensagens midiáticas tão mistificadoras quanto inconseqüentes. Visam transformar pessoas em autômatos programados para consumir determinado produto. A eficácia do processo é quase perfeita porque fundada em sólida metodologia científica de comunicação. A tal ponto que as empresas trabalham com estimativas seguras de aumento das vendas como sólido retorno da publicidade promovida. A falta de controle social sobre o conteúdo de peças publicitárias assim veiculadas expõe a cidadania à vulnerabilidade emocional geradora de hábitos incompatíveis com uma sociedade civilizada.

As consequências da propaganda podem ser perversas, se não trágicas para o indivíduo. O alcoolismo é uma das piores. Tornou-se a terceira causa de mortalidade no mundo de hoje. Só fica abaixo do câncer e das moléstias cardiovasculares, conforme assinalam pesquisas da Organização Mundial da Saúde. Segundo dados recentes, cerca de dois milhões e oitocentas mil pessoas morrem anualmente vítimas das doenças produzidas pelo consumo de bebidas alcoólicas. Sem falar das mortes ocorridas em acidentes de trânsito provocados por usuários dessa droga. Cirrose hepática, gastrite, hepatite alcoólica, neurite são exemplos da morbidade associada à bebedeira. Também as enfermidades infecciosas grassam devastadoras entre alcoólatras em virtude da redução da imunidade causada por tão antiga forma de intoxicação crônica. A sanidade mental termina inexoravelmente afetada pela impregnação alcoólica da estrutura cerebral. Afora a derrocada da saúde do bêbado, o eq uilíbrio do núcleo familiar a que pertence é devastado pela ruína comportamental invasiva e demolidora. Os estragos sociais decorrentes do alcoolismo são conhecidos de há muito. Os custos financeiros para o Estado, enormes. Contudo, o lucro das empresas é mirabolante. Logo, o saldo econômico é entendido como positivo no pensamento capitalista, o que justifica a tragédia planejada.

A sociedade prefere combater as mazelas derivadas do consumo de álcool a evitar a propagação dos estímulos que o desencadeiam. Por ingenuidade ou hipocrisia, fecha os olhos ao evidente papel que o alcoolismo desempenha como porta de entrada para o universo de outras drogas ainda mais arrasadoras ‒ maconha, cocaína e crack, entre outras. As imagens contundentes das famosas “crackolândias”, continuamente mostradas pelos meios de comunicação, ocultam as “alcoolândias”, muito mais numerosas, onde os jovens são iniciados na carreira de usuários das drogas do momento. Combate ao crack, à maconha e à cocaína é algo que a sociedade somente tem feito para não dizer que não falou de flores. A porta de entrada que dá acesso atraente a esse dantesco inferno é mantida escancarada por omissão indesculpável de dirigentes e legisladores do país.

A propaganda de bebidas alcoólicas é ação nefasta. Só faz crescer a população de dependentes químicos. Precisa ter fim. Não basta inserir-lhe frases de alerta para atenuar o impacto persuasivo de imagens e sons enganosos, cuidadosamente montados para fascinar o público pela embriaguez. São ineficazes. Reforçam o objetivo da propaganda. O alcance da frase “Se for dirigir, não beba” é pífio. Cala bem mais fundo a recíproca que, subliminarmente, dela se desdobra: “Se não for dirigir, beba!”.
Fonte: Homepage da Sociedade Brasileira de Pediatria

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Os medos dos homens

Quando tenho acesso a algo bom, meu desejo imediato é compartilhar, pois não me satisfaço em conhecer ou ter só para mim, o que considero útil e belo na vida, seja um livro, uma música, um filme, um lugar bonito. Alguns podem até achar chato esse compartilhar, mas, parodiando o Chaves: “tenham paciência comigo...”, esse é o meu jeito. Risos.
Como motivação para uma reflexão, encaminhei esta mensagem a alguns amigos e amigas. Tão delicado quanto tratar com mulheres (a maioria) a respeito de idade, peso, estrias e rugas, é difícil fazer com que nós homens encaremos nossos próprios medos.
Repercutiu legal.

Gilvan Almeida

Aos prezados:
Para um exame: será que o autor está correto? Eu concordo plenamente com ele: tenho medo...e não é pouco...risos.
Às Prezadas:
O autor diz que vocês já sabem deste segredo dos homens (que é o 2º de oito). Não sei se todas sabem mesmo. Acho que:
-Umas sabem (descobriram) e sabem que sabem;
-Algumas sabem, percebem algo, mas não têm a consciência de que sabem, e não sabem que sabem;
-Outras não sabem mesmo e continuam acreditando que somos sempre corajosos e poderosos, muitas delas vivendo escravizadas (literalmente até) por esta falsa crença.
abs
Gilvan

Os medos dos homens

“(..) o segundo segredo masculino, é que a vida dos homens é basicamente governada pelo medo. Como os homens não conseguem invalidar a frágil força que conseguiram reunir, mal conseguem admitir para si ou para os outros o quão influenciados são pelo medo. Mas a cura de um homem exige que ele deixe de se sentir envergonhado pelo seu medo. Sempre admirei a liberdade que as mulheres têm de reconhecer seus temores, de compartilhá-los, colhendo desse modo o apoio das outras pessoas. O fato de o homem reconhecer o lugar do medo na sua vida significa correr o risco de sentir-se pouco masculino e de ser humilhado pelos outros. E, assim, seu isolamento aprofunda-se.
Mas este segredo está na boca do povo, meus amigos. Até as mulheres já o descobriram, aliás sempre souberam de tudo. Enquanto pesquisava para este livro, deparei com o artigo: “Os medos secretos dos homens: o que nunca lhe contarão”, na edição de março de 1992 do, isto mesmo, Ladies Home Journal (Jornal da Dona de Casa). Portanto, elas nos descobriram. Na essência, o artigo identifica corretamente os dois medos fundamentais dos homens: o de não estarem à altura do que se espera deles e o medo da provação física ou psicológica.
O medo de não estar à altura do que se espera é o aspecto mais visível (...) – a competição, ganhadores e perdedores e a produtividade como medida da masculinidade. O medo da provação (...) é expressado pelos homens que duvidam da habilidade de defenderem a si próprios e à sua família. (...)

Trecho do livro Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens, de James Hollis, Editora Paulus.


É um livro mais indicado para os homens, mas as mulheres que querem conhecer melhor o nosso funcionamento, especialmente as fragilidades e as feridas, também devem ler. O autor, James Hollis, é um terapeuta Junguiano que tem diversos livros muito bons. Outro dele que li recentemente foi A sombra interior: Por que pessoas boas fazem coisas ruins?

Mais um trecho para alimentar a vontade de vocês lerem:

"(...) Nenhum homem consegue deixar o lar (dos pais) ou estar no mundo sem sofrer dolorosos ferimentos no corpo e na alma. Mas precisa aprender a dizer: "Não sou minha ferida nem minha defesa contra meu ferimento. Sou minha jornada." As feridas da vida talvez esmaguem a alma ou estimulem a consciência, porém somente a consciência cada vez maior trará luminosidade à jornada.(...)
(...) Para que o homem salve a si próprio, é preciso que retome a jornada da alma.(...) Eh chegada a hora de sermos sinceros por inteiro, de reconhecer o medo, mas viver a jornada.(...) Viver a jornada da alma significa servir à natureza, servir aos outros e servir a esses mistérios do qual somos a experiência. Aí, então, haveremos encarnado o invisível, tornado luminoso este curto episódio entre dois grandes mistérios. (nascer e morrer)"

sábado, 17 de setembro de 2011

Primeiro amor

Gosto dos íntimos ambientes das reminiscências, das lembranças do ontem que preciso retomar, para tentar entender o meu ser hoje. Para o mergulho nas memórias, busco também outras fontes que deixaram marcas, músicas, filmes e fotografias, por exemplo, e ainda em outras, que me fazem reencontrar momentos de dores e alegrias que construíram a minha história até hoje. Os livros têm um papel fundamental neste reviver para compreender melhor, superar, crescer e amadurecer. Tanto os que já li e releio, quanto os novos, como aconteceu recentemente com o livro Primeiro amor, do escritor russo Ivan Turguêniev (1818-1883).
A forma que melhor desenvolvo o aprendizado é visual. Enquanto uns aprendem mais fácil através da audição e outros vivendo a experiência, eu capto melhor o mundo através dos olhos. Assim, o livro já me conquistou pela pintura da adolescente, do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), na capa. Na conclusão percebi melhor o quanto que a pintura sintetizou o tema central do livro: a adolescente com a mão no queixo, o olhar distante e sonhador, o despertar do coração, o primeiro amor.
Comecei a leitura umas quatro vezes. Gostei do jeito que Turguêniev fez a abertura para que o leitor penetre na essência da obra, mas não passava da página 20, até o dia em que, de repente, em nova leitura, comecei a me sentir como o garoto, identificando semelhanças de sentimentos e situações vividas na adolescência. Então foi o adolescente Gilvan se deliciando na arte do escritor e também nas próprias memórias afetivas, na ingenuidade intensa da fase, dos amores platônicos, tão bem colocados no garoto.
O livro me proporcionou um gracioso reencontro com sentimentos infantis e adolescentes que hibernavam em meu coração. Alguns trechos “pescaram dentro de mim”, como diz a escritora Lygia Fagundes Telles, e trouxeram à superfície, alguns ecos que me faziam parar a leitura, para examinar melhor em que ponto as palavras estavam repercutindo dentro de mim, que sentimentos estavam sendo mexidos. Neste trecho a seguir, observei e admirei a arte com que o autor utiliza as palavras do personagem, equilibradamente entremeadas de sentimentos de veneração e dor, para se referir ao pai:
“...Estranha influência tinha meu pai sobre mim, e estranhas eram nossas relações. Ele quase não se preocupava com minha educação, mas nunca me ofendia. Ele respeitava a minha liberdade e era até – se posso me expressar assim – cortês comigo ... No entanto, não permitia que eu me aproximasse dele. Eu o amava, eu o admirava, ele me parecia um modelo de homem – e, Deus meu, com que paixão eu me ligaria a ele, se não sentisse constantemente a sua mão, que me afastava! Em compensação, quando queria, ele sabia, quase num instante, com uma palavra, um gesto, despertar em mim uma confiança ilimitada.
Minha alma se abria – eu tagarelava com ele como com um amigo sensato, um conselheiro condescendente... Depois ele me abandonava do mesmo modo repentino – e sua mão me afastava de novo; carinhosa e suave, mas me afastava.
(...) Certa vez - uma única, única vez! -, ele me acariciou com tamanha ternura que quase chorei ... Mas tanto sua alegria como sua ternura desapareceram sem deixar vestígio (...)
Seus raros acessos de boa disposição para comigo nunca eram provocados pelas minhas mudas mas compreensíveis súplicas: eram sempre inesperados.(...)”.
Olhei para mim: vivi isso com meu pai? Não, mas já me encontrei com pessoas que ainda vivem presas em labirintos de conflitantes sentimentos de amor e ódio com relação à figura paterna. São prisioneiras de um tempo que não é contado em minutos, tempo que foi vivido e não passou, e nem passará espontaneamente, na medida em que esse tempo é feito de sentimentos, que precisam ser trazidos à luz da consciência, pelo autoconhecimento, e reconhecidos, sem máscaras, em todas as suas características maléficas e benéficas, com todo o seu conteúdo de dor, abandono, desprezo e solidão. Assim feito, acredito que seja possível, para elas, um renascer, com base no perdão e na reconciliação. Reflexão semelhante pode ser feita com relação à figura materna, quando o conflito maior é com ela.
Outro momento magistral do livro acontece quando ao adolescente é revelado um doloroso segredo, que o autor assim descreve:
“...Não chorei, não me entreguei ao desespero; eu não me perguntava quando e como tudo isso acontecera; não me admirei como eu não percebera, não adivinhara antes. (...) O que eu ficara sabendo estava além das minhas forças; essa descoberta repentina me esmagara ... Estava tudo acabado. Todas as minhas flores haviam sido arrancadas de uma vez, e jaziam em volta de mim, espalhadas e pisoteadas.” Vejam que beleza a forma metafórica com que Turguêniev descreve a dor do triste fim.
Às vezes leio com alegria e encantamento determinadas palavras, que me fazem ver (penso eu) a essência e a arte do coração do escritor, como estas em que Turguêniev descreve, também em forma de metáfora, o amadurecimento do ser humano e o valor das paixões da juventude:
“...quando sobre minha vida já começam a se estender as sombras do entardecer, o que me restou de mais fresco, mais precioso, do que as lembranças daquele tão fugaz, tão rapidamente passageiro temporal primaveril?”.
E também quando diz: “...Ela se arrancou de mim e se afastou. Eu também me afastei. Não sou capaz de transmitir o sentimento com o qual me afastei. Eu não gostaria que ele se repetisse algum dia; mas me consideraria infeliz se jamais o tivesse experimentado...”
Esta é uma das grandezas da literatura: fazer-nos pensar, sentir, reviver dores e amores, penetrar em um mundo paralelo de magia e encantamento, sonhar acordado...

Gilvan Almeida

Título do livro: Primeiro amor
Autor: Ivan Turguêniev
Editora: L&PM pocket plus
Publicação: verão de 2008
Contra-capa:
O primeiro amor, esse sentimento avassalador e intoxicante, que paralisa e faz sofrer, se desdobra, nas mãos de Ivan Turguêniev (1818-1883), na história de um amor platônico. O grande autor russo abraça esse sentimento universal como ninguém e cria um dos seus mais festejados livros.
Vladimir Petróvitch, um garoto de 16 anos, cai de amores pela vizinha, Zinaída Alexándrovna, de 21 anos, filha de princesa e dona de uma beleza arrebatadora. Mas o destino de amores platônicos todos sabem qual é ... E Turguêniev, na sua genialidade, soube ir além.
Publicado em 1860, Primeiro amor reflete todo o lirismo e o frescor da primeira vez que o coração acelera por alguém.

sábado, 10 de setembro de 2011

Os dois 11 de setembro

Desde que soube com mais detalhes do golpe militar no Chile (11.09.1973), em 1974, ano-base de minha formação teórica político-ideológica e médica (estava iniciando a Faculdade de Medicina), comecei a estudar a cultura e a política daquele país, especialmente através dos poetas Pablo Neruda, Violeta Parra, Gabriela Mistral e Isabel Allende; do músico Vitor Jara (morto pelos militares, sob tortura, no Estádio Nacional de Santiago, transformado em prisão durante o golpe) e do político Salvador Allende. Lembro que, a cada conhecimento que adquiria a respeito das verdadeiras razões do golpe e da participação decisiva dos Estados Unidos da América, para que Pinochet e sua quadrilha derrubassem o governo democraticamente eleito de Allende, mais crescia em mim a consciência da opressão e exploração política e econômica em que viviam (e ainda vivem) os povos do, à época, chamado 3º mundo. Ficou claro que sendo o primeiro governo latinoamericano, declaradamente socialista, eleito pelo voto popular, e com todas as medidas de proteção, incluindo a nacionalização, das riquezas do patrimônio chileno, especialmente dos minérios, era um “mau exemplo” muito grande para os povos oprimidos, o que fez com que o imperialismo “cortasse o mal pela raiz”, com o custo de milhares de vidas humanas e de tantas outras barbaridades que recaíram sobre o povo chileno e de outros países latinoamericanos. Desde aquela época, anualmente, em 11 de setembro, solidarizo-me com o povo chileno e com todos os que carecem de pão e liberdade em seu mais amplo sentido. Lembro aqui de Violeta Parra, que disse: “Os famintos pedem pão; chumbo lhes dá a polícia.” Estamos vendo a mídia global derramando em nossas mentes toda uma visão excessivamente dramática, superficial, e, em muitos pontos, tendenciosa, sobre os 10 anos do 11.09.2001. O que poderia ser uma justa homenagem às famílias e aos inocentes cidadãos que morreram nos atentados, o poderio militar-industrial transforma em uma intensificação do papel de vítima inocente dos Estados Unidos, promovendo uma catarse nacionalista no povo, alimentando a visão de que a guerra é a solução, ao mesmo tempo em que tenta esconder, ou subdimensionar, que o contribuinte é quem paga as contas das guerras, com vidas e dólares, e o capitalismo lucra. Quase nenhuma palavra sobre os 38 anos do 11.09.1973. Dentre as raras exceções, encontrei este artigo, no site Carta Maior, que compartilho com os que se interessam pelo tema.

Gilvan Almeida
P.S. Na foto, o Presidente Salvador Allende,pouco antes de sua morte, comandando a defesa no interior do Palácio governamental de La Moneda, durante o golpe.


Dois 11 de setembro

Luis Hernández Navarro - Correspondente da Carta Maior na Cidade do México

No dia 11 de setembro de 1973 um golpe militar derrubou no Chile o governo do socialista Salvador Allende. A partir desse momento, com o apoio dos falcões de Washington, caiu sobre a maioria dos países da América Latina a noite sombria das ditaduras militares, a repressão e o desmantelamento das conquistas sociais. O Chile se converteu no grande laboratório neoliberal de onde seriam exportadas suas políticas para todo o mundo. Sacrificando Allende se quis frear as lutas de libertação no continente.

O 11 de setembro de 2001, o ataque às Torres Gêmeas em Nova York serviu como pretexto para que o governo de George W. Bush fizesse da guerra contra o terrorismo o instrumento principal para instaurar um novo poder constituinte. No calor da tragédia, os EUA fixaram uma nova doutrina de segurança nacional na qual advertiram que não tolerariam desafios ao seu poder, defendem a ação militar solitária em defesa da unidade nacional, sustentam o direito de efetuar ataques preventivos em qualquer parte do mundo e advertem que a dissuasão contra inimigos que “odeiam os EUA e tudo o que representam” é inútil.

Os dois 11 de setembro são datas que marcam o início de ofensivas do Império para reforçar seus interesses e abrir no continente americano e no Oriente Médio um novo ciclo de dominação e de acumulação de capital. No primeiro caso, o golpe de Estado serviu para frear o avanço da esquerda e das forças nacional-populares no Cone Sul, aprofundar a penetração do capital estadunidense e ampliar a presença militar. No segundo, permitiu à Casa Branca, com o pretexto do combate ao fundamentalismo religioso, avançar no controle dos recursos petroleiros no Oriente Médio e fazer da guerra parte do ciclo de expansão e consolidação da globalização neoliberal. Seu objetivo foi impor uma nova ordem internacional unilateral; estabelecer, pela lógica do fato consumado, um governo autoritário da globalização.

Os dois 11 de setembro reafirmaram o “excepcionalismo” estadunidense. Em 1787, James Madison, conhecido como o “pai da Constituição” dos Estados Unidos, assinalou que o objetivo principal do governo devia ser “proteger a minoria opulenta da maioria”. Em plena Convenção Constitucional, expressou que temia que o número cada vez maior de habitantes que sofriam as desigualdades da sociedade “suspirasse secretamente por uma distribuição mais equitativa dos bens”. A democracia, sentenciou, devia ser reduzida.

Nessa época, outro dos “pais fundadores” desse país, Thomas Jefferson, afirmou: “Estou persuadido que nunca houve nenhuma constituição tão bem calculada como a nossa para a expansão imperial e o autogoverno”.
Quase dois séculos depois, primeiro Richard Nixon e depois George W. Bush se empenharam em tornar realidade em escala planetária a missão que Madison atribuía ao governo e que Jefferson atribuía à Constituição de seu país.

A 38 anos do primeiro 11 de setembro e dez do segundo, na América Latina os povos resistem. Derrubaram as ditaduras militares da década dos setenta e meados dos oitenta e abriram a porta para que candidatos de centro-esquerda ganhassem as eleições. Antes do triunfo eleitoral, já tinha se produzido uma vitória cultural. O que o Império quis evitar com o Golpe de Estado no Chile renasceu por outras vias. As aventuras imperiais de Washington no Oriente Médio debilitaram o controle sobre a área que era considerada o quintal dos Estados Unidos.

Os governos progressistas na América Latina impulsionaram um processo de reconstrução da arquitetura do poder e da geopolítica na região. Há no continente uma redefinição profunda das relações e da inserção com os Estados Unidos, que se expressa tanto no rechaço das políticas da Casa Branca como no surgimento de um novo tecido institucional para favorecer a integração regional. A Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) foi torpedeada e, no Equador, não se renovou o contrato para que os EUA utilizassem a base militar de Manta. Também na contramão de Washington, a solidariedade com Cuba e as relações diplomáticas ativas com o Irã tem sido uma constante. O investimento chinês cresceu vertiginosamente. Com dificuldades, uma proposta pós-neoliberal abre caminho na região.

Ironias da história, dois 11 de setembro depois, o legado de Salvador Allende na região está mais vivo do que nunca.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18425

Leia mais sobre o tema:

1.A vítima 0001 dos atentados do 11 de setembro: a mensagem do Padre Mychal .
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18438&editoria_id=6

No dia 11 de setembro de 2001, a coberta marcada com a inscrição “Vítima 0001” continha o cadáver do padre Mychal Judge, um capelão católico do Departamento de Bombeiros de Nova York. A sua foi a primeira morte registrada por causa dos atentados daquela manhã. O trabalho que ele realizou em vida deveria estar no centro das comemorações do décimo aniversário dos atentados de 11 de setembro: paz, tolerância e reconciliação. O artigo é de Amy Goodman.

2.A matemática macabra do 11 de setembro
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18435&editoria_id=6

A resposta dos EUA ao ataque contra o World Trade Center engendrou duas novas guerras e uma contabilidade macabra. Para vingar as mais de 2.900 vítimas do ataque, algumas centenas de milhares de pessoas foram mortas. Para cada vítima do 11 de setembro, algumas dezenas (na estatística mais conservadora) ou centenas de pessoas perderam suas vidas. Mas essa história não se resume a mortes. A invasão do Iraque rendeu bilhões de dólares a empresas norteamericanas. Essa matemática macabra aparece também no 11 de setembro de 1973. O golpe de Pinochet provocou 40 mil vítimas e gordos lucros para os amigos do ditador e para ele próprio: US$ 27 milhões, só em contas secretas. O artigo é de Marco Aurélio Weissheimer.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A relação médico-paciente está na UTI

Hipócrates (460 A.C.- 377 A.C.), médico grego, Pai da Medicina Ocidental, foi o primeiro médico, que conheço, a valorizar a relação médico-paciente dentro do processo de investigação, diagnóstico, prognóstico, tratamento e cura das doenças, além de dar ênfase, em sua filosofia e prática médica, à prevenção das doenças e manutenção da Saúde.
Ao longo dos séculos, especialmente com o advento do capitalismo, quando efetivou-se a mercantilização da doença e da saúde, com a criação e a consolidação do complexo industrial transnacional médico e farmacêutico, a relação médico-paciente foi perdendo espaço para a medicina tecnológica. Observemos, por exemplo, a mudança de valor dos exames diagnósticos dentro de uma consulta médica. Lembro que na faculdade, 1975 a 1980, havia uma máxima, dita por alguns professores, em que acreditei e continuo acreditando, que diz assim: “a clínica é soberana.”, ou seja, em caso de dúvida ou discordância, entre o quadro clínico do paciente e o resultado de um exame complementar, valorizar mais a clínica. Atualmente, os exames, que são denominados complementares, deixaram de ser complementares à investigação clínica, a uma boa anamnese; à criação, desenvolvimento e manutenção de uma boa relação médico-paciente, e adquiriram o papel de atores principais do ato médico, símbolos de status e modernidade médica. Para muitos pacientes, consulta boa é aquela em que são pedidos muitos exames e prescritos muitos medicamentos. O que a maioria não percebe, é que isso, muitas vezes, é uma compensação à consulta “estilo fast-food”, feita no ritmo apressado que o mundo moderno instalou em todas as atividades humanas, mas que revela na essência, ou melhor, desnuda, também, as nossas deficiências de formação profissional.Transferimos, ou nos fizeram transferir, já desde a formação universitária, a arte médica de Hipócrates, de Paracelso, de Samuel Hahnemann e tantos outros médicos notáveis, para a medicina das máquinas e dos medicamentos miraculosos.
Podemos culpar somente os médicos por essa transformação? por uma medicina que, paradoxalmente, vangloria-se de tanto desenvolvimento, mas que não vemos, na realidade do povo carente? Não; mas, por estarmos na linha de frente, junto à população, caem sobre os nossos ombros responsabilidades que deveriam ser cobradas dos distintos níveis da gestão governamental da Saúde Pública. E os lucros dos Planos de doenças, da indústria médica-farmacêutica e da mídia, que “vende a imagem da moderna medicina”, cada vez maiores.
Assim, o médico, hoje, tem somente um papel de intermediário entre o doente e os clarividentes exames diagnósticos e as drogas milagrosas. A relação médico-paciente está em extinção, pois ela não é construída se não houver o tempo necessário para a aproximação e o conhecimento mútuo entre o profissional e o paciente. A medicina está perdendo seu grande elo com o ser humano.
Samuel Hahnemann, na sistematização do modelo terapêutico homeopático colocou como fundamentos para a nova prática médica, uma filosofia homeopática, um estudo aprofundado dos medicamentos homeopáticos e restaurou, para o ato médico, a anamnese criteriosa e a relação médico-paciente.
Dentro deste princípio fiz um estudo, em diversos sites, sobre a visão de alguns autores sobre a relação médico-paciente. Selecionei alguns para vocês.

Gilvan Almeida

“A maior queixa das pessoas a respeito de seus médicos é de que eles não as ouvem. Ouvir significa não apenas quais os seus sintomas, mas também o que eles (os sintomas) significam para os pacientes.”
Eric Cassell (The Healer's Art)

“Enquanto seu papel como curadores de doença é bem conhecido, seu papel como cuidadores (de pessoas) permanece obscuro.”
Eric Cassell (The Healer's Art)

“Tão importante quanto conhecer a doença que o homem tem, é conhecer o homem que tem a doença”.
William Osler

“A medicina não é apenas uma Ciência, mas também a Arte de deixar nossa individualidade interagir com a individualidade do paciente”.
Albert Schweitzer

“... Devemos todos ter em mente que o remédio mais usado em medicina é o próprio médico, o qual, como os demais medicamentos, precisa ser conhecido em sua posologia, reações adversas e toxicidade.”
Michael Balint (O médico, seu paciente e a doença)

“As ações da Medicina ligam essas duas pessoas (médico e paciente). É a natureza dessa ação na presença da relação de cura que dá à Medicina um caráter especial dentre as atividades humanas.”
Pellegrino & Thomasma (A Philosophical Basis of Medical Practice)

“... O tempo é fundamental na relação médico-paciente. Para o doente, é muito mais importante o tempo psicológico do que o tempo do relógio.”
Genival Velloso de França (Flagrantes Médico-Legais)

“A Medicina de hoje transforma o médico num especialista frio e impessoal, que recebe seus clientes transferidos, muitas vezes, daqueles com quem mantinham laços fraternais que uniam as famílias e as aconselhavam.”
Genival Velloso de França (Flagrantes Médico-Legais)

“Hoje já não vivemos a época em que a ciência médica era apenas uma arte pessoal e íntima, numa relação estreita entre médico e paciente. A sociedade interveio entre um e outro e a Medicina socializou-se.”
Genival Velloso de França (Flagrantes Médico-Legais)

“O paciente é reduzido ao papel de objeto que se conserta, mesmo que não tenha qualquer possibilidade de sair da oficina - esqueceram-se de que ele poderia ser uma pessoa a quem se ajudaria a curar, ou a capengar a seu modo na natureza.”
Ivan Illich (A Expropriação da Saúde)

“O médico que vê o seu papel apenas como curador de doenças ou lutador contra a morte fica, geralmente, sem esperanças. O médico que sabe ser sua função ajudar os enfermos ao limite de sua habilidade tem condições de oferecer algo ao paciente.”
Eric Cassell (The Healer's Art)

“Eu estou sugerindo que um paciente esclarecido é aquele no qual o processo consciente foi conectado com o processo corporal.”
Eric Cassell (The Healer's Art)

“Mas, para que a informação seja útil, o médico precisa compreender as preocupações do paciente - compreender não apenas qual é a questão, mas o que a questão significa.”
Eric Cassell (The Healer's Art)

Fonte: http://www.luizrobertolondres.com.br/ecos/busca.asp

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

2ª guerra mundial: dicas de filmes e livro

Dentre os assuntos que são de meu interesse desde a infância, destaco a História. Recebi bons estímulos dos professores de história do Acre, do Brasil e Geral, no período em que estudei no Colégio Acreano (primeiro ginasial ao segundo científico), as professoras Maria Martins e Ester Maia, e o Professor Manoel Lima (Neo).
Agosto é um mês em que, anualmente, lembro da II guerra mundial por causa das explosões das bombas atômicas em Hiroshima (dia 06) e Nagasaki
(dia 09), no Japão, em 1945, uma das maiores covardias que um poderio militar fez com um país já vencido militarmente. Ainda hoje fico indignado com tamanha falta de compaixão, farsescamente justificada como em nome da liberdade, quando na realidade foi para demonstrar para a União Soviética, quem é que mandaria no mundo a partir dali... E até hoje nenhum pedido de desculpas às famílias dos mais de 300.000 inocentes civis mortos. Foi como se tivessem eliminado vermes.
Meus estudos têm se dado principalmente através de livros e filmes, quase sempre abordados pelo ângulo dos aliados e, principalmente, dos judeus, proporcionando-me já alguns conhecimentos das visões histórica, econômica, política, cultural e médica do tema.


Tenho carência ainda de conhecer mais a forma como foi vivida aquela guerra, pelos povos orientais, russos, africanos e sul-americanos, além de ciganos, homossexuais, doentes mentais e outras minorias.
Recentemente encontrei estas três referências sobre a 2ª grande guerra, que indico para quem se interessa pelo assunto.


Gilvan Almeida

1.Cine-documentário: A arquitetura da destruição


Vi este filme por acaso, em um canal da Sky, e fiquei impressionado com a “requintada e detalhada” preparação da Alemanha para os “1.000 anos de glória do III Reich”, que Hitler sonhava. O arquiteto da destruição cercou-se de profissionais de diversas áreas, industriais, cientistas e artistas, para criar um novo padrão nos campos da arquitetura, do urbanismo, das artes, dos esportes, das ciências e tudo o que pudesse expressar a superioridade da raça ariana. Especial destaque ele deu à propaganda e ao marketing.
A seguir um resumo do filme:


A ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO
DIREÇÃO: Peter Cohen
NARRAÇÃO: Bruno Ganz
Suécia 1992 - 121 minutos


RESUMO
Este filme é considerado um dos melhores estudos sobre o Nazismo. Lembra que chamar Hitler de artista medíocre não elimina os estragos causados por sua estratégia de conquista universal. O arquiteto da destruição tinha grandes pretensões e queria dar uma dimensão absoluta à sua megalomania. O nazismo tinha como princípio fundamental embelezar o mundo, nem que para isso tivesse que destruí-lo.
Esse documentário traça a trajetória de Hitler e de alguns de seus mais próximos colaboradores, com a arte. Muito antes de chegar ao poder, o líder nazista sonhou em tornar-se artista, tendo produzido várias gravuras, que posteriormente foram utilizadas como modelo em obras arquitetônicas.
Destaca ainda a importância da arte na propaganda, que por sua vez teve papel fundamental no desenvolvimento do nazismo em toda a Alemanha.
Numa época de grave crise, no período entre guerras, a arte moderna foi apresentada como degenerada, relacionada ao bolchevismo e aos judeus. Para os nazistas, as obras modernas distorciam o valor humano e na verdade representavam as deformações genéticas existentes na sociedade; em oposição defende o ideal de beleza como sinônimo de saúde e conseqüentemente com a eliminação de todas as doenças que pudessem deformar o "corpo" do povo.
Nasce assim uma "medicina nazista" que valoriza o corpo, o belo e estará disposta a erradicar os males que possam afetar essa obra.
Do ponto de vista social, o embelezamento é vinculado diretamente à limpeza. A limpeza do local de trabalho e a limpeza do próprio trabalhador. Os nazistas consideram que ao garantir ao trabalhador a saúde e a limpeza, libertam-no de sua condição proletária e, garantem-lhe dignidade de burguês, eliminando portanto a luta de classes.
A Guerra é vista como uma arte. Com cenas de época, oficiais, mostra-nos a visita de Hitler à Paris logo após a ocupação: O Fuher chega de avião durante a madrugada, visita a Ópera, o Arco do Triunfo, alguns prédios imponentes. Volta para a Alemanha no mesmo dia.
O domínio sobre a França, Bélgica, Holanda possibilitaram aos nazistas a pilhagem de obras de arte. Em 1941 a conquista da Grécia; nova viagem de Hitler, que tinha na beleza da antigüidade um de seus modelos.
O filme dedica ainda um bom tempo à perseguição e eliminação dos judeus como parte do processo de purificação, não só da raça, mas de toda a cultura, mostrando o processo de extermínio. É interessante perceber que, durante toda a guerra, mesmo no período final com a proximidade da derrota, os projetos arquitetônicos do III Reich tiveram andamento, pretendendo construir a nova Berlim, capital do mundo.
Fonte: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=102

2.Literatura:


Triângulo rosa: Um homossexual no campo de concentração nazista


Autores: Jean-Luc Schwab
Rudolf Brazda


Este livro me trouxe informações sobre a preparação e a execução da perseguição de homossexuais, antes e durante a 2ª guerra, incluindo as bases jurídicas e ideológicas que os nazistas utilizaram para a prisão e extermínio de muitos. Escrito com base no relato biográfico de Rudolf Brazda e intensa pesquisa histórica que o autor fez em arquivos militares, bibliotecas e museus, especialmente na Alemanha, França e na antiga Tchecoslováquia.
Assim como os judeus eram identificados pela estrela amarela bordada no uniforme de prisioneiro, os homossexuais eram obrigados a usar um triângulo rosa, daí o título do livro.
Destaco alguns trechos:


“(...) Da aurora dos seus 97 anos, Rudolf Brazda nos deixa aqui um testemunho sem igual, raro, sustentado por um rigoroso trabalho de pesquisa histórica. Da ascensão do nazismo na Alemanha à invasão da Tchecoslováquia, da despreocupação no início dos anos 1930 ao horror do campo de concentração de Buchenwald, esta obra revela em detalhe, pela primeira vez, as investigações policiais que visaram inúmeros homossexuais no Estado nazista. Também aborda, com tato e sem tabu, a questão da sexualidade num campo de concentração. Esta é a história de um triângulo-rosa.”

-“...O que aconteceu (no nazismo) é testemunho de um prejuízo infinito para a esfera da solidariedade entre tudo aquilo que tenha uma face humana. Nesse desencadeamento extremo de elementos contrários às tradições do pensamento e ao funcionamento normal das sociedades, colocou-se de repente a questão da norma das relações sociais. A fronteira entre a normalidade e a anormalidade viu-se abolida. A diversidade da espécie humana tornou-se fator de incômodo. A consciência individual dissolveu-se no coletivo; a burocracia ambiente elevou o desprezo a norma de relacionamento, a irresponsabilidade a norma de consciência, a força a norma de ação e o crime a norma de saúde social e racial. (...) Marie-José Chombart de Lauwe – Presidente das Fundação pela Memória da Deportação.

-Fedem das seine – palavras do idioma alemão escritas no portão central de entrada do campo de concentração de Buchenwald, que significa “a cada um o que merece.”

3.Filme longa-metragem:


Chuva negra: a coragem de uma raça


Sou admirador de filmes orientais, especialmente japoneses e chineses. Desde que soube da existência do filme “Chuva negra, a coragem de uma raça”, do diretor japonês Shohei Imamura, há mais de 20 anos, comecei a procurá-lo, até recentemente adquiri-lo. O título do filme refere-se à chuva negra que caiu sobre Hiroshima, após a explosão da bomba atômica, decorrente da combinação de água, poeira e radiação.


Sinopse: Cinco anos depois da explosão da bomba atômica em Hiroshima, vários moradores de uma vila ainda sofrem os efeitos da radiação. Entre eles, estão o Sr. e Sra. Shizuma, tutores da sua sobrinha Yasuko. Aparentemente, ela não demonstra qualquer doença, embora tenha sido exposta à chuva negra (...). O filme acompanha não apenas os efeitos físicos, mas sobretudo os psicológicos que recaem sobre os sobreviventes, sabedores que, a qualquer momento, podem manifestar algum tipo de doença. Obra-prima indiscutível do cinema japonês.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cara, alma e coração

Já acreditei plenamente no ditado popular que diz assim: “Quem vê cara, não vê coração.” Hoje entendo que depende de quem olha, pois há diversas formas de se fazer uma “leitura” do coração e da alma do ser humano, como esta que estou aprendendo dentro da homeopatia: “É a linguagem corporal que revela a verdade. O paciente não a percebe e os sintomas objetivos perceptíveis pelo médico observador atento equivalem à apresentação do homem interior. James Tyler Kent (1849-1916), médico e filósofo homeopata, disse: “...O enfermo real é anterior ao organismo enfermo. (...) vontade e entendimento constituem o homem. Quando vontade e entendimento operam em ordem, temos o homem em saúde. (...) A vontade se expressa na face, seu resultado se enxerta na fisionomia (...) A fisionomia, assim, expressa o coração.””
Também o escritor russo Ivan Turguêniev (1818-1883), em sua obra prima Primeiro Amor, chega a esta mesma conclusão: “(...) não dá para disfarçar (...) o que está na alma está no rosto.”


Gilvan almeida

sábado, 6 de agosto de 2011

A praga do convencimento

Partindo do princípio de que somos iguais perante as leis dos homens e de Deus, considero uma ofensa aos direitos humanos toda forma de discriminação, preconceito, estigmatização ou qualquer outra manifestação que possa humilhar e causar sofrimento a um ser humano.
Encontrei muito do que penso neste texto, por isso resolvi divulgá-lo. Observem que foi publicado em 2.000 e, pelos temas que traz, parece que foi ontem.
Gilvan Almeida

A praga do convencimento
Por Nilton Bonder

Há poucos dias, o Papa tocou numa antiga ferida do mundo ocidental, pedindo perdão pelos crimes cometidos em "nome de Deus". Nunca ficou tão claro politicamente o significado do terceiro mandamento, "não tomarás o nome de teu Deus em vão". Em particular, foram lembrados os crimes cometidos a serviço da "verdade": a intolerância e violência contra dissidentes, guerras religiosas, violência e abusos dos Cruzados, e os métodos cruéis utilizados pela Inquisição.
Não há dúvida da importância deste gesto na luta fundamental contra o desejo de "convencer" e "converter". A idéia que norteia nossa civilização ocidental é que, para um lado ter razão, o outro tem que necessariamente estar errado.
Conta-se que um rabino foi certa vez consultado sobre um litígio. Uma das partes envolvidas apresentou seu caso e o rabino aquiesceu: "você tem razão". A outra parte também apresentou sua argumentação e o rabino reconheceu: "você também tem razão".
Atônito, o assistente que o acompanhava, questionou: "isto é um litígio, como pode ser que este tenha razão e aquele também?". O rabino concordou: "você também tem razão".
Exige sabedoria resgatar o rabino da patética condição de alguém que concorda com qualquer argumentação, e compreender o seu ensinamento acerca de uma "razão" que não é indivisível ou única. Para nossa dificuldade, a realidade é sempre composta de vários certos. A democratização do "certo" é talvez o mais importante ato de cidadania e espiritualidade de nossos tempos.
Mais importante do que a memória e o julgamento do passado, talvez seja a capacidade de identificar em nosso tempo as atitudes que ainda hoje representam as forças do convencimento. Elas estão por todas as partes, travestidas de intolerância, proliferando em todas as religiões, com as mais diversas formas de fundamentalismos, fazendo-se o uso da linguagem do "convencimento" ou do "auto-convencimento".
Por mais de uma década, as tradições afro-brasileiras enfrentaram uma guerra religiosa declarada, orquestrada por algumas denominações evangélicas. O resultado, tal qual um Brasil de índios catequizados, foi o abandono de origens e tradições, por conta de outras supostamente "mais civilizadas", mais próximas da "verdade absoluta". Somos contemporâneos de organizações internacionais missionárias, financiadas com a "missão" de evangelizar os judeus. No exterior e no Brasil, crescem cultos dissimulados de "judaicos", com o intuito de trazer judeus, em particular os desgarrados, para conhecer a "verdade", em pleno século XXI.
Talvez mais do que entre judeus, cristãos, muçulmanos ou outras tradições, o mundo no século XXI se divida entre os que "precisam convencer" e os que "não precisam convencer".
São estas as duas religiões que dividem o Ocidente e o Meio Oriente. Os que "precisam convencer" são aqueles que acreditam que a vida é uma caminhada que deve chegar a algum lugar, onde suas vivências e valores serão comparados às vivências e aos valores de outros. Os que "não precisam convencer" não percebem a vida como um mega- "vestibular". Não há primeiros colocados, ou aprovados e reprovados por parâmetros externos e excludentes. Não há salvos, nem perdidos. Mas sim a possibilidade de não sofrer de desespero para os que vivam suas vidas com reverência, integridade e intensidade.
Há neste mundo as pessoas que "vivem e deixam viver", e as que precisam afirmar suas certezas, provando e apontando o "outro" como errado. Um dia iremos concordar que só existe um parâmetro externo para definir o "certo" e o "errado". Certo é qualquer coisa que não queira convencer ou impor a vontade de um sobre o outro. Errado é a postura do convencimento.
Tanto o convencido quanto o que convence são perdedores. O julgamento da vida se baseia em duas listas de acusação: as ocasiões em que fomos convencidos e aquelas em que convencemos. Nossa identidade e nosso senso de presença são experimentados quando não estamos nem na condição de convencidos ou na de convencer. A própria alegria depende do quanto somos convencidos, e do quanto convencemos. Quanto mais convencemos ou somos convencidos, mais tristes e insatisfeitos nos tornamos, maior nosso senso de inadequação, maior nossa insegurança, e maior o nosso medo.
O convencimento nos rouba a vitalidade fundamental de nossa própria raiz, e nos faz dependentes do outro para definir a nós mesmos. O convencimento é uma inveja dissimulada. Hospedeiro do mal, ele se instala em todas as áreas estagnadas e alienadas de nossa vida, e lá deposita suas larvas. Podemos erradicar o "convencimento" do mundo com uma ação "sanitária", cuidadosa e organizada.
Podemos nos educar a ponto de termos "tolerância zero" com a intolerância. E as tradições religiosas têm um importante papel a desempenhar neste sentido, durante o século XXI. O reconhecimento dos erros do passado é um importante passo e, sem dúvida, demonstra maturidade. Mas, ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade. Isto porque a História julgará a todos não pela consciência do erro, mas pela capacidade de evitar repeti-lo.

Nilton Bonder é Rabino da Congregação Judaica do Brasil – Rio de Janeiro

O Globo - Primeiro caderno - Opinião - 23/MAR/2000
http://www.niltonbonder.com/port/port.htm