domingo, 15 de maio de 2011

Fale menos, ouça mais.

Você é daquele(a)s que falam o tempo todo e não escuta as pessoas, parecendo ter 4 bocas e um só ouvido? Gosta de dizer a verdade, mas não aceita ouvir a verdade dos outros, sendo intolerante e agressivo se alguém ousa dizer algo que não seja elogios a seu respeito? Invade as conversas das pessoas sem ser chamado(a)? Coloca-se sempre como o(a) certo(a), o(a) dono(a) da verdade, o(a) infalível? Não tem a paciência de ouvir as pessoas concluírem as frases enquanto falam e fica colocando palavras para elas falarem? Não consegue ficar calado(a) em ambientes públicos onde o silêncio é sinal de civilidade e de respeito ao próximo?
Observe que o corpo humano é formado de uma boca e dois ouvidos, a natureza mostrando que o ser humano deve ouvir muito mais do que falar (no mínimo o dobro). Por não prestar atenção nisto, têm pessoas que falam demais, sufocam e impedem as outras de se expressarem, gerando muitas vezes conflitos e incompreensões. O poeta Luiz Melodia diz a este respeito na música Congênito:
“Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais...”
Então, que tal aprendermos a ouvir mais? No mundo de hoje há muitos para falar e poucos para ouvir, e, pela carência de bons ouvintes, muitos pagam terapeutas para serem ouvidos, pois precisam de alguém que os ouçam com atenção, respeito, compreensão e acolhimento. Muitas vezes quem ouve não precisa dizer nada, só ouvir, pois o falar, o desabafar, é terapêutico.


O filósofo alemão Goethe captou de forma sábia a importância do ouvir, quando disse: “Falar é uma necessidade, escutar é uma arte.”

Gilvan Almeida

PS: O escritor Rubem Alves escreveu sobre este tema, no belo texto a seguir.

CURSO DE ESCUTATÓRIA


Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um
palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.
Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".
Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve
nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Autor: Rubem Alves

5 comentários:

NORMELIA MARIA disse...

Por enquanto, me encontro na escutatória! Gosto desse lugar!

NORMELIA MARIA disse...

Por enquanto, me encontro na escutatória. Gosto deste lugar!

Francimar disse...

Ai quem me dera ter um curso de escutatória! Acho que para mim seria muito bom. nem sempre consigo me colocar no lugar de escutar, mas, tô pelejando prá isso. Ainda não tinha visto com os olhos de chamar o outro de tolo quando expressamos nossas opiniões a respeito do que o outro diz. Estou examinado, mas,não deixa de ser uma compreensão também boa. Tá servindo de reflexão.

Fátima Almeida disse...

Acho também que algumas pessoas deveriam pensar se o que estão falar interessa ao seu interlocutor ficar a ouvir. Nessa relação falar e ouvir precisa haver uma empatia, um modo pelo qual o que se fala e se ouve vai sendo transformado numa terceira coisa que acrescenta a ambos. No geral existe mais o monólogo. Mas o importante é que todos precisam falar muito mais para saber de si mesmo.

Marcos Afonso disse...

Querido Gilvan,
Me ocorreu, ouvindo tudo -em silêncio - o quanto eu detesto a palavra " tolerância". Penso ser a palavra pronunciada mais amiga da hipocrisia na contemporaneidade. Posso odiar-te, mas tolero-te ao meu lado. Esta "postura" psicofísica me arrepia. É um GRITO interrompendo a diferença do falar do outro. Escutatótia -1. Tão providencial, teu post!... Até porque a Filosofia nasce bem lá, no fiar do mais fino fiapo do silêncio...
Abração, Filósofo do Cotidiano!