sábado, 14 de março de 2009

Estatuto do Homem

Para mim, o Estatuto do Homem é a obra prima de Thiago de Mello, um dos maiores poetas vivos, por quem tenho grande admiração.

Gilvan Almeida



Estatuto do homem - ato institucional permanente

por Thiago de Mello

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converterem-se em manhãs de domingo.

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrirem-se dentro da sombra e que as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV

Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único

O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V

Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio, nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI

Fica estabelecido, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías. O lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII

Por decreto irrevogável, fica estabelecido o reinado permanente da justiça, da claridade e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que, sobretudo, tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa, a qualquer hora da vida, o uso do traje branco.

Artigo XI

Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que, por isso, é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido. Tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou. Artigo final Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio e a sua morada será sempre o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964



3 comentários:

Faide Veiga disse...

Gilvan, "l Corintios 13.1-14" e "O Estatuto do Homem" quando lidos ou pensados e absorvidos em sua essência por nosso "eu",nos impulsionam a entregar sem cobranças,viver com a alma leve,esticar as mãos para receber e dar calor ao proximo,concretizar o abstrato e entre tantas outras realidades,esquecer de si mesmo quando necessario e ser pessoa nas pessoas.
"De tudo que permanece o maior sempre sera o amor."
Luz Paz e Amor
Abço
Faide

Denise Bomfim disse...

A salamo -a-leikom!
Que a divulgação de textos tão belos elevem o pensamento das pessoas que visitam o seu Blog tão positivo.
Divulgue a Paz sempre!
Salam!

Olívia Maia disse...

Amigo Gilvan:
Concordo contigo quanto a grandeza de Tiago de Melo (poeta que tem cheiro de terra, e muito da "nossa" terra). O artigo III é algo que me embala como uma canção: "Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrirem-se dentro da sombra e que as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança". Quantos girrassóis internos temos ainda por abrir dentro de nossas "sombras", né? (muito simbolico).
Abraços.