sábado, 14 de novembro de 2009

Bagagem da viagem

Nestes 15 dias de viagem a Brasília e Goiânia quase não passeei. Cuidei da saúde, ou melhor, do que há frágil precisando melhorar, e participei de um Seminário Internacional de Homeopatia, com o Dr. Bandish Ambani, membro da Predictive Homeopathy School, localizada em Mumbai - Índia. www.predictivehomeopathy.com. Aproveitei também para descansar, pensar e ver filmes: vi 20 em 11 dias. Teve dia que vi 4 longas e um curta-metragem. Ampliei meus conhecimentos sobre o diretor japonês Akira Kurosawa, um dos meus prediletos e que cada vez mais admiro a sensibilidade, e vi mais 7 filmes dele. Um, chamado Madadayo, o último que filmou antes de morrer, conta uma bonita história de um professor muito amado pelos alunos, que se aposenta. Uns alunos continuam a procurá-lo em casa, e criam uma comemoração anual no dia do aniversário dele. Todos os anos, durante a festa, os alunos perguntam "Madakai?" (Pronto? Ainda não se cansou de viver?), e ele, depois de uma imensa taça de cerveja, responde "Madadayo!" (Ainda não!), significando que seus alunos teriam que "agüentá-lo" por mais um ano. Assim, continuam a conviver e a compartilhar situações do cotidiano do sábio Mestre, incluindo as coisas da velhice. Em uma dessas festas o professor diz para as crianças que trazem o bolo à sua frente, umas palavras que me tocaram e fizeram lembrar de diversas pessoas que gosto, especialmente meus filhos: "...encontrem alguma coisa de que realmente gostem. Encontrem algo que sejam capazes de amar de verdade. E quando encontrarem, lutem com todas as forças que tiverem pelo seu tesouro. E assim, vocês terão o tesouro pelo qual tanto lutaram. E irão adquirir o hábito de abraçar as coisas de coração. Este é o verdadeiro tesouro."
Quem de nós já pode dizer que encontrou esse tesouro? Se acha que sim, como estão os cuidados para mantê-lo? Se acha que não, o que está sendo feito para encontrá-lo? Será que encontrou e não reconheceu?


Gilvan Almeida

Sinopse do filme: O último filme de Akira Kurosawa conta a história das últimas décadas de vida de Hyakken Uchida, professor e escritor que se aposenta no início dos anos 40. Com saudades e reconhecendo o talento do professor, seus antigos alunos fazem constantes reuniões para matar as saudades do professor, em um ritual que o prepara para a morte, que pode estar mais perto a cada ano. Enquanto isso, a vida continua.
"Espero que todo mundo saia do cinema com um grande sorriso no rosto depois de ver este filme", disse Akira Kurosawa sobre seu 30º e último trabalho como diretor: Akira morreu em 6 de setembro de 98.
Foi como esse mestre do cinema escreveu seu próprio epitáfio: libertando sua alma de criança a correr pelo campo com outras crianças numa tarde tocantemente crepuscular, cantarolando “madadayo”. Aos poucos sobre o cantarolar, sobressai-se suavemente "L’estro Armonico" de Vivaldi, clássico de que tanto gostava, a câmera focalizando o céu cheio de cores – a última cena do filme – a alma do mestre a adejar por entre as nuvens rumo ao infinito. Como no filme, o que é perene é invisível.

Um adeus sem tristeza.

Um réquiem feito de ternura.

Foi o último trabalho do cineasta.

A última poesia declamada pelo menestrel.

O último canto do trovador.

3 comentários:

Isaac Melo disse...

Salve caro Gilvan,
saudações acreanas!

Suas reflexões são sempre muito interessantes, pois partem de uma reflexão que nasce da vivência, sempre com um amor instigante pela vida. Isso muito me toca.

Não conhecia esse conceituado diretor japonês. Vou agora procurar encontrar alguns de seus filmes.

Tantos tesouros que vamos descobrindo que eram tesouros depois que os perdemos. Não tenho filho, mas sou filho e posso dizer que meus pais são meu grande tesouro.

Um grande abraço, daqueles bem acreanos!

Anônimo disse...

Oi, Gil!
Adorei revê-lo em Brasília e também de ver publicação de filme do "Kuro" em seu blog. Sinto pela pouca divulgação desse Diretor de tão fina sensibilidade e de tão belas e simples lições de vida.
Suas palavras a respeito dos tesouros me lembrou um texto do Fernando Pessoa, "Navegue", que também trata dos tesouros:
"Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar. O lugar deles é lá. [...]
Quem você ama? Guarde dentro de um porta jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui, a mais valiosa. [...]".
Eu mesma sinto que ainda preciso aprender a cuidar melhor de meus tesouros...
Grata pelo belo momento de leitura e por sua amizade, pérola em minha vida.
Maria

Faide disse...

E que bagagem proveitosa não é Gilvan?cuidar da saúde,aprofundar o conhecimento e lógico desviar o espírito para coisas que não são o assunto principal do dia a dia.O que aliás também são tesouros que acumulamos mesmo que muitas vezes não lhes damos o merecido valor ou reconhecimento.
Muito legal a mensagem que o filme citado passa,comportamento pouco usual hoje mas que faz grande diferença para quem o dá e para quem o recebe,tornando a vida mais leve e com mais sentido.
Eu posso dizer que já encontrei meu tesouro,alguns ainda estão tomando forma,em construção, vindo ao meu encontro,jamais desistirei deles,outros já estão juntinho de mim,somando e compartilhando a simples e espetacular existência.
Cuido de todos com amor,fé e a paciência da busca e da espera.Assim posso os encontrar,esperar que cheguem
e mantê-los.
E você,saiu do cinema com um grande sorriso no rosto?
Bjo
Faide.