sábado, 20 de março de 2010

Médicos versus planos de saúde

Disponibilizo este texto do dr. Dráuzio Varella, com a intenção de dar mais subsídios para as pessoas conhecerem melhor o que está por trás da vida destes profissionais, hoje em dia tão criticados e pouco reconhecidos: os médicos. Como o capitalismo descobre formas de lucrar com tudo, seus agentes descobriram, ao longo do século passado, diversas formas de lucrar com as doenças e os doentes, sendo uma das mais lucrativas os planos de saúde, que, na verdade, são planos de doenças, pois sobrevivem às custas delas: quanto mais pessoas doentes melhor. Ivan Illich, em 1975, já dizia na introdução de seu livro A expropriação da Saúde, 3ª edição: “A empresa médica ameaça a saúde, a colonização médica da vida aliena os meios de tratamento e o seu monopólio profissional impede que o conhecimento científico seja partilhado (1)”

Gilvan Almeida

Médicos versus planos de saúde
Dráuzio Varella

Médicos que vivem da clínica particular são aves raríssimas. Mais de 97% prestam serviços aos planos de saúde e recebem de R$ 8 a R$ 32,00 por consulta. Em média, R$ 20.

Os responsáveis pelos planos de saúde alegam que os avanços tecnológicos encarecem a assistência médica de tal forma que fica impossível aumentar a remuneração sem repassar os custos para os usuários já sobrecarregados. Os sindicatos e os conselhos de medicina desconfiam seriamente de tal justificativa, uma vez que as empresas não lhes permitem acesso às planilhas de custos.

Tempos atrás, a Fipe realizou um levantamento do custo de um consultório-padrão, alugado por R$ 750 num prédio cujo condomínio custasse apenas R$ 150 e que pagasse os seguintes salários: R$ 650 à atendente, R$ 600 a uma auxiliar de enfermagem, R$ 275 à faxineira e R$ 224 ao contador. Somados os encargos sociais (correspondentes a 65% dos salários), os benefícios, as contas de luz, água, gás e telefone, impostos e taxas da prefeitura, gastos com a conservação do imóvel, material de consumo, custos operacionais e aqueles necessários para a realizaçãoda atividade profissional, esse consultório-padrão exigiria R$ 5.179,62 por mês para sua manutenção.

Voltemos às consultas, razão de existirem os consultórios médicos. Em princípio, cada consulta pode gerar de zero a um ou mais retornos para trazer os resultados dos exames pedidos. Os técnicos calculam que 50% a 60% das consultas médicas geram retornos pelos quais os convênios e planos de saúde não desembolsam um centavo sequer.

Façamos a conta: a R$ 20 em média por consulta, para cobrir os R$ 5.179,62 é preciso atender 258 pessoas por mês. Como cerca de metade delas retorna com os resultados, serão necessários: 258 + 129 = 387 atendimentos mensais, unicamente para cobrir as despesas obrigatórias. Como o número médio de dias úteis é de 21,5 por mês, entre consultas e retornos deverão ser atendidas, 18 pessoas por dia! Se ele pretender ganhar R$ 5.000 por mês (dos quais serão descontados R$ 1.402 de impostos) para compensar os seis anos de curso universitário em tempo integral, pago pela maioria que não tem acesso às universidades públicas, os quatro anos de residência e a necessidade de atualização permanente, precisará atender 36 clientes todos os dias, de segunda a sexta-feira. Ou seja, a média de 4,5 pacientes consultados por hora, num dia de oito horas ininterruptas. Por isso, os usuários dos planos de saúde se queixam: "Os médicos não examinam mais a gente"; "O médico nem olhou a minha cara, ficou de cabeça baixa preenchendo o pedido de exames enquanto eu falava"; "Minha consulta durou cinco minutos".

É possível exercer a profissão com competência nessa velocidade? Com a experiência de quem atende doentes há quase 40 anos, posso garantir-lhes que não é. O bom exercício da medicina exige, além do exame físico cuidadoso, observação acurada, atenção à história da moléstia, à descrição dos sintomas, aos fatores de melhora e piora, uma análise, ainda que sumária, das condições de vida e da personalidade do paciente.

Levando em conta, ainda, que os seres humanos costumam ser pouco objetivos ao relatar seus males, cabe ao profissional orientá-los a fazê-lo com mais precisão para não omitir detalhes fundamentais. A probabilidade de cometer erros graves aumenta perigosamente quando avaliamos quadros clínicos complexos entre 10 e 15 minutos.

O que os empresários dos planos de saúde parecem não enxergar é que, embora consigam mão-de-obra barata - graças à proliferação de faculdades de medicina que privilegiou números em detrimento da qualidade -, acabam perdendo dinheiro ao pagar honorários tão insignificantes: médicos que não dispõem de tempo a "perder" com as queixas e o exame físico dos pacientes, pedem exames desnecessários. Tossiu? Raios X de tórax. O resultado veio normal? Tomografia computadorizada. É mais rápido do que considerar as características do quadro, dar explicações detalhadas e observar a evolução. E tem boa chance de deixar o doente com a impressão de que está sendo cuidado. A economia no preço da consulta resulta em contas astronômicas pagas aos hospitais, onde vão parar os pacientes por falta de diagnóstico precoce, aos laboratórios, cujas redes se expandem a olhos vistos pelas cidades brasileiras.

Por essa razão, os concursos para residência de especialidades que realizam procedimentos e exames subsidiários estão cada vez mais concorridos, enquanto os de clínica, pediatria (que está em extinção) e cirurgia, são desprestigiados. Aos médicos, que atendem a troco de tão pouco, só resta a alternativa de explicar à população que é tarefa impossível trabalhar nessas condições e pedir descredenciamento em massa dos planos que oferecem remuneração vil. É mais respeitoso com a medicina procurar outros meios de ganhar a vida do que universalizar o cinismo injustificável do "eles fingem que pagam, a gente finge que atende". O usuário, ao contratar um plano de saúde, deve sempre perguntar quanto receberão por consulta os profissionais cujos nomes constam da lista de conveniados.

Longe de mim desmerecer qualquer tipo de trabalho, mas eu teria medo de ser atendido por um médico que vai receber bem menos do que um encanador cobra para desentupir o banheiro da minha casa. Sinceramente.

(1) Phillipe Roquepio, Le Partage au savoir: science, culture, vulgarization. Paris, Seuil, 1974.

4 comentários:

Isaac Melo disse...

Caro Gilvan,
muito bom frisar isso, para que ninguém pense que todo médico é igual. Felizmente existem bons profissionais, como você: humano, dedicado e que usa a cabeça e o coração!

Grande abraço!

Joel Vieira disse...

Olá, pesquisando alguns blogs na internet encontrei o seu. Muito interessante suas informaçoes a respeito da medicina.
Em breve prentendo incluir em meu blog assuntos da minha futura area de atuaçao, a psicologia.

Abraço.

Faide disse...

Oi Gilvan?!
É um fato triste mas a saúde no Brasil é tratada com desrespeito e falta de ética e moral.Não tem transparência nem compromisso por parte dos gestores e autoridades.
Há exceções,mas de modo geral não recebe a atenção que merece,a não ser nas intenções particulares e de interesses própios o que permite a prática de atitudes como a problemática dos planos particulares de saúde e maus empresários que fazem disso apenas uma fonte de lucros em detrimento da assistência adequada,desrespeitando os cidadãos e explorando o trabalho de bons profissionais de medicina que poderiam estar prestando seus serviços de forma mais digna e mais adequada.

bjo
Faide

Anônimo disse...

Oi trata-se a 3ª vez que li o teu blog e gostei tanto!Espectacular Projecto!
Adeus