quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Gente estranha

Neste estranho planeta, há pessoas muito estranhas, umas conhecidas, que conseguem dizer com arte suas estranhezas, outras anônimas, e que também dizem com grande beleza o que vêem e sentem. Tenho o prazer de conviver com algumas delas, tanto real, quanto virtualmente. Aprendo muito com essa gente, que procura dizer e viver corajosamente a sua ideologia, seus sonhos e formas de ser e ver o mundo. Elas conseguem enxergar o belo e o essencial onde a maioria nada vê, mesmo nas dores, e têm coragem suficiente para assumirem a si mesmas, mesmo sabendo do peso social que são obrigadas a carregar. E como elas incomodam... Por isso são discriminadas e segregadas, porque revelam muito da hipocrisia social, do falso moralismo, das máscaras sociais, da cultura de manada que é imposta pela mídia a serviço da classe dominante, onde pouco cabem a autenticidade e a sinceridade. Ao longo dos séculos, alguns desses estranhos já chegaram a pagar com a vida, o preço pela ousadia de serem diferentes. A seguir alguns trechos do que pensam alguns destes ETs.

Gilvan almeida


1. “É, realmente você me conhece, me sinto uma estranha nesta terra que me faz reclusa de mim mesma, com medo até de falar, me expor, sinto muitas vezes e agora mais que nunca (pela idade chegando...) as pessoas me olham como se não me enxergassem, como se meu discurso fosse de doido mesmo! (risos). Minhas observações e forma de pensar são fora do bando... não têm aplausos do público porque estou fora da boiada.....um bezerro que se perdeu pra se achar (risos)...estou filosófica.
Mas na minha nova fase, e eu sempre me proponho a novas fases (nem sempre cumprindo esse projeto...), penso realmente em me expor menos, pois nem posso dar boas risadas porque incomoda sempre alguém... amigos que perderam a originalidade. Acho que é isso.
A saudade? Tenho de minha tribo. Sinto muita vontade de me sentar por longas horas e conversar sem preconceitos ou falsos discursos. Ser livre na forma de ser sem me preocupar com olhares inquisitórios. Saudades tenho do Fernão Capelo gaivota, me sinto como ele. Aí sim, meu retrato.. querendo fazer os outros verem o que eles não conseguem ver, e eu passo mesmo de doida diante dos atônitos olhares.....” Amiga

2. "O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade ... sei lá de quê". Frase da poetisa portuguesa Florbela Espanca.

3. “Meus pais se separaram quando eu tinha 14 anos, e a vida me convidou para novas posturas. Algo que me machucava muito na época era uma música que não saia da minha cabeça "...minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais...". Não podia crer que meu futuro estava determinado a ser igual "àquilo". Vem então aos meus ouvidos o mestre Raul Seixas dizendo: "eu prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo!" Ainda assim, a dualidade me acompanhou até os 30 anos! Nossa! Aos 30 "rasguei"as roupas e máscaras vestidas para me sentir aceita, especialmente por mim mesma! Penso que esta é a etapa mais dolorosa. Olhar para si mesmo - sem falsas desculpas e se encarar! Aos 32 - LIBERDADE! Aprendi a falar “não quero”, “não vou”, “se me pegar assim não dou”(risos), e neste momento estou em namoro comigo mesma. O período da culpa, da dor, da raiva, mandei, com carinho, "tomar no cu"!” Amiga

4. “Há que ser religioso e profano. Reunir o misticismo de uma severa catedral gótica com a maravilha da Grécia pagã. Ver tudo, sentir tudo. Na eternidade teremos o prêmio por não haver tido horizontes.(...) Estamos num lago asfixiante de vulgaridade e sobre ele quero que minha caravela fantástica vá até o templo do Magnífico com as velas infladas de neve e de sol. Eu sou como uma ilusão antiga feita de carne e ainda que meu horizonte se perca em crepúsculos formidáveis de enamoramentos, tenho uma corrente como Prometeu e me custa muito trabalho arrastá-la...em vez de águia, uma coruja me rói o coração. (...)” Garcia Lorca, poeta espanhol.

5. Balada do louco
Composição: Arnaldo Baptista / Rita Lee

Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz

Caso queira, veja e ouça a Rita Lee cantando esta música: http://www.youtube.com/watch?v=bK3WnsAge9U

10 comentários:

Marcos Afonso disse...

Querido amigo Gilvan,
Filósofo do Cotidiano!

Muito boa sua reflexão...
(as de conteúdo, sempre nos param...).

Como vi Platão e o seu Mito!...

Como vi, nas paredes da Caverna, as estranhas sobras que ainda refletimos...

Muito grato pelo Post!

Grande e filosófico abraço!

Normélia Pinho disse...

Todas as vezes que tenho o sentimento de ser extemporânea ou "desadequada" (melhor que inadequada), recorro a tão bela canção que enche meu coração de alegria por perceber a beleza que há na diferença.
Lindo escrito, o seu.
Obrigada.
P.S Aí vai a letra da música e, se quiser ouvi-la, pode buscar na internet. A melodia também é muito linda.
Beijos

Balada Para un Loco
Astor Piazzolla
Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese que se yo, viste?
Salgo de casa por Arenales, lo de siempre en la calle y en mi...
Cuándo, de repente, detras de un árbol, se aparece el.
Mezcla rara de penultimo linyera
y de primer polizonte en el viaje a Venus.
Medio melón en la cabeza,
las rayas de la camisa pintadas en la piel,
dos medias suelas clavadas en los pies
y una banderita de taxi libre levantada en cada mano.
Parece que solo yo lo veo,
Porque él pasa entre la gente y los maniquíes le guiñan,
los semáforos le dan tres luces celestes
y las naranjas del frutero de la esquina
le tiran azahares.
Y así, medio bailando y medio volando,
se saca el melón, me saluda,
me regalo una banderita y me dice:
(Cantado)
Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
No ves que va la luna rodando por Callao,
que un corso de astronautas y niños, con un vals,
me baila alrededor... ¡Bailá! ¡Vení! ¡Volá!
Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión
y a vos te vi tan triste... ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!...
el loco berretín que tengo para vos.
¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombón
a desvelarte el corazón.
¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Como un acróbata demente saltaré,
sobre el abismo de tu escote hasta sentir
que enloquecí tu corazón de libertad...
¡Ya vas a ver!
(Recitado)
Y asi diziendo, el loco me convida
a andar en su ilusión super-sport
Y vamos a correr por las cornisas
¡con una golondrina en el motor!
De Vieytes nos aplauden: "¡Viva! ¡Viva!",
los locos que inventaron el Amor,
y un ángel y un soldado y una niña
nos dan un valsecito bailador.
Nos sale a saludar la gente linda...
Y loco, pero tuyo, ¡qué sé yo!:
provoca campanarios con su risa,
y al fin, me mira, y canta a media voz:
(Cantado)
Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Trepate a esta ternura de locos que hay en mí,
ponete esta peluca de alondras, ¡y volá!
¡Volá conmigo ya! ¡Vení, volá, vení!
Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Abrite los amores que vamos a intentar
la mágica locura total de revivir...
¡Vení, volá, vení! ¡Trai-lai-la-larará!
(Gritado)
¡Viva! ¡Viva! ¡Viva!
Loca el y loca yo...
¡Locos! ¡Locos! ¡Locos!
¡Loca el y loca yo

Nostradamus disse...

Gilvan...

Nesses poucos anos de vida, após alguns tropeços, acredito, pleno de convicção que a verdadeira paz está em sermos realmente o que somos. Vejo que dessa forma meus passos podem ficar até lentos, mas consigo respirar melhor.

Socorro Braga disse...

Olá Gilvan,
Gostei do texto, principalmente quando fala da LIBERDADE porque a mulher de hoje, muito mais facilmente percebe que pode estar no comando de sua própria vida, sem precisar do outro.É tão bom está bem consigo mesma e ter paz, são ganhos que compensam na vida!
Gostei da frase que li outro dia:"Amo você a tal ponto que liberto você!!!!"
Abraços

Faide disse...

Gilvan,
Primeiro quero dizer que "Balada do Louco" é música que nos leva a um lugar que nem sei aonde é,penso em êxtase, paixão por nós mesmos,pelo outro,pela vida e sua estranheza e a estranheza do ser como citada em seu post.
Eu tenho uma estranheza que me assusta, as vezes...
Detesto coisas que todo mundo gosta...e gosto de coisas que todo mundo detesta...não gosto de hipocrisia social...nem de falsa ética...é melhor ser estranho e chocar do que ser dissimulado e enojar...é melhor...
amar sem tocar...do que ser tocada sem amar...
Compartilho com você,esse "estranho" poema que me define...em parte...
"SOU ESTRANHA"
Sou estranha sim!
Muitas vezes me pego a sorrir quando deveria chorar,
Sou estranha na maneira de amar,como abelha rainha me comporto,que ama o macho para depois devorar.
Sou estranha nas minhas atitudes,decisões,sou possessiva,autoritária,compulsiva,
mas,doce nas horas de me doar...
Sou estranha,fazer o quê!

2 bjos
Sempre Faide ;)

Sandra disse...

Querido Gilvan

Além de escrever muito bem você desperta, nas pessoas, a coragem de se expor.
Às vezes este nosso planeta é mesmo estranho com gente esquisita.
beijão
Sandra

Anônimo disse...

Então,
Não é para isso que estamos nesse mundo? nos expor e viver a vida verdadeiramente diante das lentes que nos focalizam e registram?diante de olhos e corações curiosos?
sem preconceitos e até mesmo sem conceitos que muitas vezes nos guiam por caminhos que jamais iríamos,se não fosse tão difícil ser o que se é na essência.

Feliz vida

Silmara Luciano disse...

Oi Gilvan,

Que texto legal...realmente você faz arte com as idéias e palavras. Peço licença para compartilhar frases e poemas de uma "gente estranha" que admiro bastante:

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro."

"Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!"

Clarice Lispector

Olivia Maia disse...

Amigo, que povo estranho e bonito esse que visita seu blog. Nossa! foi uma alegria passar aqui e ver tantos poestas da vida.
Grata pelo post. Abraços ETs (risos)

Anônimo disse...

Gostei dos contextos "estranhos" e atípicos deste blog... acho que serei feliz c/ vcs... vamos trocar idéias ou diferenças...rsrs tô na área, preciso do desconexo ou do descontextualizado pra sentir a vida e a energia "do existir" q nosso dignissímo Freud denominou de "pulsão de vida"... acho q pulsão de morte, tô fora, sei lá talvez esteja dentro... doideira essa porra... vamos ver o q rola galera... conto c/ vcs...