terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Quando Nietzsche chorou

Nada como começar o ano lendo um bom livro. Quando Nietzsche Chorou é daqueles livros que me conquistou desde o início, pois aborda temas que me interesso muito: história, filosofia, relacionamentos humanos reais, envolventes e identificáveis pelo coração do leitor.
Este primeiro romance de Irvin D. Yalom, psicoterapeuta e professor, mescla, em linguagem facilmente compreensível, elementos reais com a ficção, unindo em um mesmo contexto personagens históricos como Josef Breuer, um dos pais da psicanálise, o jovem Sigmund Freud e o filósofo Friedrich Nietzsche. Grifei alguns trechos que me tocaram o coração (leia a seguir).

Gilvan Almeida

PS: O filme Quando Nietzsche chorou, já lançado em DVD, também é muito bom.


Quando Nietzsche chorou
Irvin D. Yalom

-O importante é a coragem de ser eu mesmo...
-(...) O sofrimento pessoal é uma benção: o campo de treinamento para encarar o sofrimento da existência. (...)
-Torna-te quem tu és...
-(...)a solidão é um solo fértil para a doença(...)
- (...)E se aquilo que sou ou que fui destinado a ser é servir, ajudar os outros, contribuir para a ciência médica e o alívio do sofrimento? (...)
-(...)Amo aquilo que nos torna mais do que somos.
-“Assim como ossos, carne, intestinos e vasos sanguíneos estão encerrados em uma pele que torna a visão do homem suportável, também as agitações e paixões da alma estão envolvidas pela vaidade; ela é a pele da alma.”
-“Tens em mim o maior defensor, mas também o mais impiedoso juiz! Exijo que julgues a ti mesma e que determines tua própria punição.”
-(...)Quero ajudá-lo a se expandir e crescer, não enfraquecê-lo pela confissão de suas falhas(...)
-(...)O desejo, o estímulo, a voluptuosidade...são os escravizadores! A ralé desperdiça a vida como os suínos alimentando a vala do desejo. (...)
-(...)Nossa responsabilidade para com a vida é criar o superior, não reproduzir o inferior. Nada deve interferir com o desenvolvimento do herói dentro de você. Se o desejo o impede, então também ele precisa ser superado. (...)
-(...)Cura filosófica consiste em aprender a escutar sua própria voz interna. (...)
-(...)Não tomar posse de seu plano de vida é deixar sua existência ser um acidente(...)
-O que veria se não estivesse cego por trivialidades? (...) inteligente mas cego, sincero mas tortuoso. Saberá de sua própria insinceridade?
-(...)Eis um homem tão oprimido pela gravidade – sua cultura, sua posição, sua família – que jamais conheceu sua própria vontade. Tão preso à conformidade, que parece espantado quando falo de escolha, como se estivesse falando uma língua estrangeira. (...)
-(...)É curioso como ele teve o conceito ao seu alcance em uma idade precoce, mas nunca desenvolveu a visão para enxergá-lo (...) nunca entendeu a natureza de sua promissão. Ele nunca compreendeu que seu dever era aperfeiçoar a natureza, superar a si mesmo, sua cultura, sua família, seu desejo, sua natureza animalesca brutal, para se tornar quem ele foi, o que ele foi. Ele nunca cresceu, ele nunca se desvencilhou de sua primeira pele: ele confundiu a promissão com a realização de objetivos materiais e profissionais. E quando alcançou esses objetivos sem jamais ter aquietado a voz que dizia “torna-te quem tu és”, recaiu no desespero e invectivou a peça nele pregada. Mesmo agora ele não capta a verdade! Existe esperança para ele? Ele ao menos pensa sobre as questões corretas e não recorre a embustes religiosos. Mas é medroso demais. Como lhe ensinar a se tornar rijo? (...)Haverá uma receita para enrijecer a determinação? (...)Terei a habilidade de lhe ensinar a transmutar a “assim se deu” no “assim o quis”? (...)
-(...)Incapaz de amar, no afeto sempre doente(...)
-(...)personalidade do gato – o predador na pele de animal de estimação(...)
-(...)egoísmo infantil como resultado da atrofia e do atraso sexual(...)
-(...)As melhores verdades são as verdades sangrentas, extraídas da experiência de vida da própria pessoa.
-(...)É claro que você sofre, é o preço da visão. É claro que você sente medo, viver significa correr perigo. (...)
-(...)(Utilizar) tática diversionista por parte da mente, para evitar encarar as preocupações existenciais bem mais dolorosas que clamam por atenção(...)
-(...)Era estimulante desabafar-se, compartilhar todos os seus piores segredos, contar com a atenção exclusiva de alguém que, na maior parte do tempo, entendia, aceitava e parecia até perdoá-lo.
-(...)aprendeu a se tornar um doutor do desespero?
-(...)O importante não é eu lhe contar sobre meu caminho, e sim, ajudá-lo a encontrar o seu caminho a fim de crescer para fora do desespero.
-(...)Observar a si mesmo de uma grande distância – uma perspectiva cósmica sempre atenua a tragédia. Se subirmos bastante, atingiremos uma altura da qual a tragédia deixará de ser trágica. -(...)existe um fosso, um imenso fosso, entre saber algo intelectualmente e sabê-lo emocionalmente.
-(...)sempre que abandonamos a racionalidade e recorremos às faculdades inferiores para influenciar os homens, resulta um homem inferior e mais vulgar(...)
-(...)existe realidade em suas preocupações? (...)
-(...)algo em você, algum temor, alguma timidez, não lhe permite expressar sua raiva. Em vez disso, você se orgulha de sua mansidão. Você faz da necessidade uma virtude:soterra profundamente seus sentimentos e, depois, por não experimentar nenhum ressentimento, supõe-se um santo(...)acredita que seja bom demais para ter raiva. (...)o ressentimento enrustido torna a pessoa doente.
-(...)ele se apresenta como bom; não comete nenhum mal, a não ser contra si e a natureza! Preciso fazer com que deixe de ser um daqueles que se julgam bons porque não têm garras. (...)ele não sente raiva! Terá tanto medo de que alguém o magoe? Será por isso que não ousa ser ele próprio? Por que deseja somente pequenas felicidades? E ele denomina isso virtude. Seu nome real é covardia! Ele é civilizado, polido, um homem bem-educado. Ele domou sua natureza selvática, transformou seu lobo num cão de raça. E ele o denomina moderação. Seu nome real é mediocridade!
-(...)Sou facilmente capturado pela beleza.
-(...)odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia. (...)Por não prezarem as coisas que prezo!Às vezes, enxergo tão profundamente a vida que, de repente, olho ao redor e vejo que ninguém me acompanhou e que meu único companheiro é o tempo.
-Temos que nos voltar para o significado. O sintoma não passa de um mensageiro com a notícia de que a angústia existencial está irrompendo das profundezas do ser. (...) preocupações profundas trancafiadas por toda uma vida, agora rompem suas cadeias e batem às portas e janelas da mente. Elas demandam ser ouvidas. Não apenas ouvidas, mas vividas. (...) Sintomas – as tolas escaramuças superficiais, enquanto a batalha real, a luta mortal (está) por debaixo.
-(...)A consciência é apenas uma película translúcida que cobre a existência: o olho treinado enxerga através dela, vislumbrando forças primitivas, instintos, o verdadeiro motor da vontade de poder.
-(...)Montaigne...nos aconselha a morar em um quarto com vistas para um cemitério, pois isso aclara a nossa mente e mantém as prioridades da vida em perspectiva.
-(...)sonho com um amor que seja mais do que duas pessoas ansiando por possuir uma à outra (...) sonho com um amor em que duas pessoas compartilham uma paixão de buscar juntas uma verdade mais elevada. Talvez não devesse chamá-lo de amor. Talvez seu nome real seja amizade.
-(...)Morra no momento certo. (...)viva enquanto viver! A morte perde seu terror quando se morre depois de consumida a própria vida. Caso não se viva no tempo certo, então nunca se conseguirá morrer no momento certo. (...)Você viveu sua vida?Ou foi vivido por ela?
-Para formar crianças, você precisa primeiro estar formado. Senão, terá filhos por forças de necessidades animais, ou da solidão, ou para remendar seus buracos. Sua tarefa como pai não é produzir outro eu, mas algo mais elevado.
-Estarei desnudando antes de ensinar a tecer novas roupas?
-Assumir a responsabilidade dos outros...esse é o caminho para o aprisionamento, meu e deles.
-Quanto mais fértil o solo, mais imperdoável é o fracasso em cultivá-lo.
-Alguma vez ouviu falar de um visionário casado ou domesticado? Não, isso o arruinaria. Acho que o destino dele é ser um visionário solitário.
-(...) a relação conjugal só é ideal quando não é necessária para a sobrevivência de cada parceiro (...) para se relacionar plenamente com outro, você precisa primeiro relacionar-se consigo mesmo. Se não conseguimos abraçar nossa própria solidão, simplesmente usaremos o outro como um estudo contra o isolamento. Somente quando consegue viver como a águia, sem absolutamente qualquer público, você consegue se voltar para outra pessoa com amor; somente então é capaz de se preocupar com o engrandecimento do outro ser humano.
-(...)A chave para viver bem é primeiro desejar aquilo que é necessário e, depois, amar aquilo que é desejado.
-(...)Limites podem ser estendidos.
-(...)Ofereça a um amigo em sofrimento um lugar de repouso, mas cuide para que seja uma cama dura ou um leito de campanha.

6 comentários:

Aníssima Duarte* disse...

Um grande livro, quem quiser começar lendo Nietzsche é bom começar por aí, antes de enlouquecer...ehehe...Magnífico, depois deste, aconselho a leitura de Genealogia da Moral e logo em seguida O Anti-cristo. E viva a filosofia!

Nostradamus disse...

Já ví o filme...
Mas não se compara com essas anotações.

Destacando...

-O importante é a coragem de ser eu mesmo...

Então, esses dias alguém me escreveu falando sobre ser original, respondi dizendo que não é fácil ser original, muitos não sabem conviver com o original, lendo suas anotações ressaltei anteriormente "O importante é a coragem de ser eu mesmo..."

complemento dizendo prá mim mesmo com "mais silêncio", ou seja, posso ser eu mesmo em silêncio. É melhor ! abs

Socorro Braga disse...

Olá Gilvan,

Que sabedoria do autor em escrever um livro desse, gostei dos textos, ainda não li o livro e não vi o filme, mas fiquei emocionada(como o nome do livro) somente em ler às frases porque são verdadeiras, realistas e essas que cito abaixo me fez pensar mais ainda como é importante o autoconhecimento e a liberdade!Quando o ser humano consegue enxergar essas duas coisas que ainda não existiam em sua vida é um grande passo para o crescimento e conquistas!!
-(...)Cura filosófica consiste em aprender a escutar sua própria voz interna. (...)
-(...)Não tomar posse de seu plano de vida é deixar sua existência ser um acidente(...)
-(...)Eis um homem tão oprimido pela gravidade – sua cultura, sua posição, sua família – que jamais conheceu sua própria vontade. Tão preso à conformidade, que parece espantado quando falo de escolha, como se estivesse falando uma língua estrangeira. (...)

Grata pela dica do livro!
Um abraço,

Faide disse...

A temática que Nietzche questionava e o estilo e a sutileza com o qual o fazia,já o define.

"No amor sempre há algo de loucura,mas na loucura sempre há algo de razão."
"Se minhas loucuras tivessem explicações,não seriam loucuras."

Gilvan,penso que aos amantes da filosofia e,enfim a todos que amam a leitura,o livro que você indica é ótimo e prazeroso, trazendo questionamento íntimo ao leitor,a partir de suas abordagens filosóficas e psicológicas.
O filme não retrata o livro com profundidade mas não deixa de ser um belo e interessante resumo.
Gostei muito mesmo dos dois...excelentes...

bjo
Faide;)

Diogo disse...

Estou lendo o livro., nunca fui um leitor apto de ler se quer a história do patinho feio, para ser bem exato, é o primeiro livro que estou levando a sério, antes jamais passara de 10 paginas ahahaha e aconcelho a primeiro ler a obra, posteriormente ver o filme, ao menos assim pretendo fazer !

A parte que mais me chamou atenção !
Assim como ossos, carne, intestinos e vasos sanguíneos estão encerrados em uma pele que torna a visão do homem suportável, também as agitações e paixões da alma estão envolvidas pela vaidade; ela é a pele da alma.

Diogo disse...

Estou lendo o livro., nunca fui um leitor apto de ler se quer a história do patinho feio, para ser bem exato, é o primeiro livro que estou levando a sério, antes jamais passara de 10 paginas ahahaha e aconcelho a primeiro ler a obra, posteriormente ver o filme, ao menos assim pretendo fazer !

A parte que mais me chamou atenção !
Assim como ossos, carne, intestinos e vasos sanguíneos estão encerrados em uma pele que torna a visão do homem suportável, também as agitações e paixões da alma estão envolvidas pela vaidade; ela é a pele da alma.