terça-feira, 22 de junho de 2010

Sabedoria popular no cotidiano psiquiátrico

Muitas pessoas acham que um portador de transtorno mental é um zumbi, alguém que vive fora do mundo, que não pensa, não tem sentimentos, não tem horizontes, não ama e não é amado. O estigma de ser um “doente mental” é cruel na “sociedade dos ditos e tidos como normais”. Após quase 30 anos de prática médica, eu pensava que já tinha me defrontado com todos os tipos de dores e sofrimentos humanos, mas eu estava enganado. Há 4 anos trabalhando na área da Saúde Mental, tenho convivido com dramas e tragédias que não imaginava acontecerem, e nem com tanta freqüência. Encontro todos os tipos de discriminação, violência e preconceito, que vão desde o abandono e os maus-tratos por membros da própria família, a agressões de vizinhos, motoristas de ônibus, pessoas nas ruas, além da falta de respeito aos direitos de cidadania em órgãos públicos. Apesar disso, é gratificante a convivência com os pacientes e suas famílias, com quem compartilhamos dores, vitórias e a lucidez possível. Também encontro neste cotidiano, a sabedoria, a fraternidade, a busca de amor e de ser feliz, como também as situações do amor romântico, de corações apaixonados, como nesta pequena vivência: Uma paciente chorando mágoas de uma paixão despedaçada é consolada pela amiga, que me olha com um olhar cúmplice e diz: “Pílulas para tirar amor do coração não tem não, n’é doutor? Só a opinião e um outro amor.” Confirmei, silenciosamente feliz, aquela verdade, expressa através de tão belo exemplo de acolhimento e conforto amigo.

Gilvan Almeida

2 comentários:

Faide disse...

Gilvan,
Realmente lamentável o preconceito e a discriminação em nossa sociedade serem ingredientes que jamais faltarão para saciar a ignorância de seus "degustadores."
Lembro de uma frase que diz que o preconceito é opinião sem conhecimento...
Diminuir o impacto do estigma da doença mental é certamente um dos maiores desafios para a melhora das condições de saúde mental em nossa sociedade.
Sabemos que um envolvimento maior entre as instituiçóes de saúde mental,os profissionais de saúde que nela trabalham e a sociedade,pode contribuir para promover a compreensão e educação de grande público acerca dessa doença e consequentemente a sociedade ficaria mais atenta às doenças mentais criando merecidas oportunidades a muitas destas pessoas, permitindo-lhes levar uma vida normal e um regresso à comunidade como indivíduos produtivos,auto-confiantes e capazes de desenvolverem todo o seu potencial...
Admiro o que você pensa e faz em relação ao assunto e estou com você...
"Deus sempre esteja ao lado dos bons nas causas ignoradas por muitos..."

bjo
Faide

Francimar disse...

Caro amigo, quando falo nesse assunto reporto-me a célebre frase escrita na entrada do HOSMAC "a doença mental é invisível aos olhos..." imagino que ela ainda continue por um tempo assim visto que, as doença que são visíveis o povo ainda ignora, imagina a invisível. Ela muitas vezes é invisível até para os portadores da mesma quando não reconhecem-na em si ou ainda quando não estão abertos a entender-se ou a entende-la e pala sociedade que não consegue reconhece-la.