sexta-feira, 11 de maio de 2012

Arthur Rimbaud

Observo a minha vida e vejo que, em alguns aspectos, quase sempre andei na contramão da história, um pouco distante dos desejos do que os mais velhos queriam para mim. Ainda criança, apesar de brincar bastante, nas ruas enlameadas ou poeirentas, e às margens do rio Acre, havia momentos em que deixava de lado as brincadeiras e, a contra gosto dos amigos, ia ler. Vivíamos a Rio Branco da década de 60, provinciana e isolada do país. Poucos intelectuais, quase nenhuma livraria pública. Minha mãe me envolveu desde muito cedo na arte e na paixão pela literatura e, junto com minha madrinha, conseguiam livros e revistas para saciar minha sede.
Na faculdade a maioria dos alunos queria superespecializações, eu queria medicina social, generalista, ser médico de pobre. Muitos colegas acomodaram-se na ideologia política vigente, implantada pela ditadura militar, eu, autodidaticamente, mergulhei de cabeça nas vidas e nas teorias socialistas de Marx & Engels, Lênin, Mao-Tsé-Tung, Fidel Castro, Che Guevara, Ho Chi Minh e outros teóricos esquerdistas que encontrei. Concluindo a faculdade, após um ano de torturante trabalho (forçado) no Exército, em vez de procurar uma tradicional Residência Médica fui trabalhar em um barco, no Rio Juruá, entre Cruzeiro do Sul (Acre) e a foz, no rio Solimões (Amazonas). Passei todo o ano de 1982 em viagens entre os seringais, atendendo seringueiros, ribeirinhos e índios, período que considero minha verdadeira residência médica.
Cedo percebi que a Medicina Alopática não atendia às minhas aspirações de médico, não preenchia os parâmetros de abordagem, relação médico-paciente, tratamento e cura que eu já imaginava e queria, que tinha como base a medicina segundo Hipócrates e, mais tarde, conforme Samuel Hahnemann. Foi então que descobri, em 1986, uma ciência médica, a Homeopatia, que abracei vigorosamente, por me dizer o que acredito, que olha não só a doença física isolada e sim o doente e sua doença, o ser humano integral, em sua essência, tendências patológicas e interrelações, no que o faz ser saudável ou não. Não me importou a marginalização e a falta de conhecimento que a Homeopatia era tratada pelo meio médico e não médico. Mudei-me, junto com minha família, para São Paulo, com o principal objetivo de fazer a Especialização em Homeopatia.
Assim, percebo que em diversos campos faz parte da minha sina conviver e amar pessoas, temas, ciências e artes marginais. Dentre tantas vertentes, destaco hoje, na literatura, este que foi um dos poetas mais marginais que a França já produziu: Arthur Rimbaud (Charleville, 20 de outubro de 1854 - Marselha, 10 de novembro de 1891), um pária social, misto de genialidade com transtorno mental, que teve uma meteórica carreira literária cheia de conflitos e glória. Só o conheci há bem pouco tempo, ano de 2010, através de sua principal obra: Uma temporada no inferno. No decorrer da leitura senti estar acrescentando ao meu tesouro cultural uma jóia de especial valor, juntando-se aos especialíssimos Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Machado de Assis, Rilke, Erasmo de Roterdam e outro(a)s. Interessante, é que esta valiosa aquisição gerou em mim, como sempre que ganho o que considero um presente da natureza, uma intensa vontade de compartilhar, e tristemente vi que talvez fosse mais um prazer que tenho que usufruir quase solitariamente. Com quem posso compartilhar Rimbaud? A triste pergunta sem resposta.
Tal qual Fernando Pessoa, reconheço em Rimbaud um mestre da palavra escrita. Tem frase dele que preciso parar mais de uma vez para tentar compreender o que ele quer realmente dizer, o que abrange o universo de cada palavra, o que ele "brinca de esconder" nos mistérios das entrelinhas. Como por exemplo: "Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens." Ele dá um nó na racionalidade e é preciso que nos deixemos conduzir pela intencionalidade sentimental e existencial dele, para percebermos melhor “o que é” escrever silêncios, escrever noites, anotar o inexprimível, fixar vertigens. Teoricamente nada disso é possível. Mas para ele é, pois conseguia unir, ou melhor fundir, o objetivo com o subjetivo, o concreto com o abstrato, a razão com o sentimento. E isso ganha uma dimensão bem maior, quando sabemos que toda a sua obra foi escrita dos 15 aos 20 anos, sendo sua obra prima - Uma temporada no inferno, escrita aos 19 anos, como também ao sabermos de sua vida marginal, totalmente antissocial, desligado que sempre foi das normas e convenções sociais. Aos 15 anos já era um dos autores mais premiados da Europa. Infelizmente precoce e fugaz foi sua carreira.
Em 2011 encontrei um belo ensaio “Rimbaud, a vida dupla de um rebelde”, de Edmund White, que ampliou, ainda mais, minha admiração pelo “anjo rebelde”. Compartilho um trecho que me chamou a atenção. O que está em negro é do autor – Edmund – e em vermelho de Rimbaud: "...A fim de se tornar um verdadeiro poeta, escreve Rimbaud, o escritor precisa se transformar num vidente: "O Poeta se torna vidente por um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos". O poeta tem de se submeter a uma tortura autoinvestigativa; tem de padecer todas as agonias do amor, do sofrimento e da loucura. "Ele precisa de toda a fé, de toda a força sobre-humana, de modo a se tornar entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito - e o supremo Sábio! - pois ele chega ao desconhecido".

Gilvan Almeida

2 comentários:

Luciana Santa Rita disse...

Oi amigo,

Tudo bem? Li atentamente a sua história e me emocionei pela a sua opção até a homeopatia. Em um mundo de doutores que são míopes para a dor humana, você consegue ver o melhor do homem não sadio. Usa Rimbaud para ler a alma e consegue ser um filho que absorve os conselhos maternos e madrinheiros (criado agora).

Que esse olhar poético seja a verdade, sempre.

Bom final de semana!

Beijos.

Lu

Centelha Luminosa disse...

OLá Gilvan, boa noite!
Em primeiro lugar te agradeço de coração a visita ao SEMENTES PRECIOSAS, e às palavras gentis deixadas lá para mim!

A frase "Conhece-te a ti mesmo", que foi colocada no Templo de Apolo, em Delfos, varando séculos com a finalidade de alertar os homens para a necessidade do autoconhecimento, surgiu agora em minha lembrança, após ler o teu maravilhoso relato de sua vida, em especial, que preferira as viagens "entre os seringais, atendendo seringueiros, ribeirinhos e índios, período que considero minha verdadeira residência médica."
E,não foi por acaso que buscara pra sua carreira médica, a Homeopatia, que pelo que se sabe, trata da causa da enfermidade e não do efeito.
Taí, meu amigo, gostei bastante de conhecer um pouco mais sobre você!

Grande abraço da Lu...