sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Federico García Lorca: Pequeno poema infinito

Assisti, no teatro Plácido de Castro, Rio Branco-Acre, em março/2010, a peça Pequeno Poema Infinito, construída com palavras do poeta espanhol Federico Garcia Lorca, roteiro de José Mauro Brant e Antônio Gilberto, e estrelada por José Mauro Brant. Uma das melhores peças teatrais que já vi, graças a um conjunto harmônico de poesia, estética, cenário, iluminação, música, conteúdo literário e interpretação artística, pela qual Brant recebeu a indicação ao Prêmio Shell de melhor ator de 2007.
Grifei e coloquei, a seguir, os trechos que considerei mais marcantes do livro, hábito que tenho, para, sempre que surgir a vontade, ler novamente. É uma iniciação ao pensamento e à sensibilidade deste grande artista.

Gilvan Almeida

Federico García Lorca: Pequeno poema infinito

“O que lembro, tenho.” Guimarães Rosa

Prólogo

Todos os viajantes são distraídos. Por que empregar sempre a vista e não o olfato ou o paladar para estudar uma cidade? (...)

Infância

- As emoções da infância estão em mim. Ainda não saí delas. (...)

- Sou um pobre garoto apaixonado e silencioso que, quase como o maravilhoso Verlaine (O príncipe dos poetas da França – para os que não conhecem este poeta), tenho dentro uma açucena impossível de regar e apresento aos olhos bobos dos que me olham uma rosa muito encarnada, que não é a verdade do meu coração. (...) Meu tipo e meus versos dão a impressão de algo formidavelmente passional ... entretanto, no mais fundo da minha alma há um desejo enorme de ser bem menino, bem pobre, bem escondido. (...)

- Minha vida? Será que eu tenho uma vida? (...)

- Contar minha vida seria falar do que sou e a vida de uma pessoa é o relato do que se foi. As lembranças, até da minha mais longínqua infância, são em mim, apaixonado tempo presente. (...)

- E vou contar. É a primeira vez que falo disso, que sempre foi só meu, íntimo, tão privado, que nem eu mesmo nunca quis analisar. Quando eu era criança, vivia em pleno ambiente da natureza. (...)

- Como todas as crianças, conferia a cada coisa, móvel, objeto, árvore, pedra, a sua personalidade. Conversava com elas e as amava. (...)

- A criação poética é um mistério indecifrável, como o mistério do nascimento do homem. Se ouvem vozes não se sabe de onde e é inútil preocupar-se de onde elas vêm. Como não me preocupei em nascer, não me preocupo em morrer. Escuto a natureza e ao homem com assombro, e copio o que me ensinam sem pedantismo e sem dar às coisas um sentido que não sei se elas têm. Nem o poeta nem ninguém tem a chave e o segredo do mundo.(...)

Pobreza

- Na terra encontro uma profunda sugestão de pobreza. E amo a pobreza por sobre todas as coisas. Não a pobreza sórdida e faminta, mas a pobreza bem-aventurada, simples, humilde como o pão moreno. (...)

- No povoado vivia uma menina loura, queimada pelo sol. Em sua boca tinha sangue e brilho de lua e seus olhos eram muito pequenos, com pontinhos de ouro e prado. (...)

- Porque dentro daquele corpo frio, quem sabe que coração haveria?... (Lorca dizendo dos funerais de mulheres pobres que morriam de parto e que eram enterradas no mesmo caixão com a criança, que via em sua infância. (...)

A poesia

- Mas o que vou dizer da poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso a gente deixa para os críticos e professores. Mas nem você nem eu nem nenhum poeta sabemos o que é a poesia.
Aqui está: olha. Tenho o fogo em minhas mãos. Eu o entendo e trabalho com ele perfeitamente, mas não posso falar dele sem literatura.(...) A vida está cheia de caminhos e em todos há coisas amargas e doces para a gente encontrar.
A poesia é algo que anda pelas ruas. Que se move, que passa ao nosso lado. Todas as coisas têm o seu mistério e a poesia é o mistério que contem todas as coisas. (...)

- Por isso não concebo a poesia como abstração, mas sim como uma coisa real existente, que passou junto de mim. Todas as pessoas dos meus poemas existiram. O principal é encontrar a chave da poesia. (...)

- Estamos num lago asfixiante de vulgaridade e sobre ele quero que minha caravela fantástica vá até o templo do magnífico com as velas infladas de neve e de sol. Eu sou como uma ilusão antiga feita de carne e ainda que meu horizonte se perca em crepúsculos formidáveis de enamoramentos, tenho uma corrente como Prometeu e me custa muito trabalho arrastá-la...em vez de águia, uma coruja me rói o coração. (...)

- Porque não sou um homem, nem um poeta, nem uma folha, mas sim um pulso ferido que sonda as coisas do outro lado. (...)

- Por lira tenho meu piano e em vez de tinta, suor de desejo, pólen amarelo da minha açucena interior e meu grande amor. (...)
- Há que ser religioso e profano. Reunir o misticismo de uma severa catedral gótica com a maravilha da Grécia pagã. Ver tudo, sentir tudo. Na eternidade teremos o prêmio por não haver tido horizontes.(...)

- Temos que amar a lua sobre o lago da nossa alma e fazer nossas meditações religiosas sobre o abismo magnífico dos crepúsculos abertos ...porque a cor é a música dos olhos (...)

- Há que sonhar. Pobre daquele que não sonha, pois nunca verá a luz.(...)

- Compreendo que tudo isso é muito lírico, demasiadamente lírico, mas o lirismo é o que me salvará diante da eternidade. (...)

- Quero ser todas as coisas. Bem sei que a aurora tem a chave escondida em bosques raros, mas eu a saberei encontrar.(...)

O teatro

- O teatro é a poesia que se levanta do livro e que se faz humana. (...)

- Um teatro sensível e bem orientado (...) pode mudar em poucos anos a sensibilidade do povo; e um teatro destroçado, no qual as pata substituem as asas, pode embrutecer e adormecer uma nação inteira. (...)

- Uma coisa que também é primordial é respeitar os próprios instintos. O dia em que se deixar de lutar contra seus instintos, esse dia em que se deixa de lutar contra seus instintos, nesse dia aprendemos a viver. (...)

A morte

- Quero expressar o que passou por mim através de outro estado de espírito e revelar as longínquas modulações do meu outro coração. Isso que faço é puro sentimento e vaga recordação da minha alma de cristal. (...)

- Cada dia que passa, tenho uma idéia e uma tristeza a mais. Tristeza do enigma de mim mesmo! Existe em nós um desejo de não querer sofrer e de bondade inata, mas a força exterior da tentação e a abrumadora tragédia da fisiologia se encarregam de destruir. Acredito que tudo que nos rodeia está cheio de almas que passaram, que são as que provocam nossas dores e são as que nos fazem entrar no reino onde vive essa virgem branca e azul que se chama Melancolia...ou seja, o reino da poesia. (...

- A quietude, o silêncio, a serenidade são aprendizados. (...)

Breve cronologia:

Federico Garcia Lorca nasceu na aldeia de Fuente Vaqueros, Granada, Espanha, em 5 de junho de 1898, e foi assassinado por militares partidários do General Franco, em 1936, em plena Revolução Espanhola. Não se sabe a data exata e seu corpo nunca foi encontrado. Em Granada, Federico Garcia Lorca virou terra e flores.

2 comentários:

Marcos Afonso disse...

Querido amigo Gilvan!

Também tive o prazer de ter ido
ao Teatrão.
Mas agora, lendo seu post, vejo
o quanto "perdi".
O que você fez deve ser "lido"
assim:
- Uma pessoa querida fica lendo quasebalbuciando num quarto agradável, enquanto deve-se ficar imóvelmuitoimóvel... como que ouvindo uma flauta distante...

Vou ver se a Patrycia topa...

Ficou lindo!
Parabéns!

Marcos Afonso.

Faide disse...

Gilvan,
Eu não tive esse prazer mas agora tenho algum através dessa leitura maravilhosa no teu blog...poema muito belo,realmente muita emoçao,sensibilidade e verdade...
Fico imaginando vê-lo interpretado...

bjo
Faide...