sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O espaço secreto

Gosto, cada vez mais, do estilo do escritor Rubem Alves. Ele consegue, de forma inteligente e sensível, unir a arte de bem escrever com sua boa compreensão sobre os sentimentos humanos, e tocar assim o coração do leitor. Neste texto, a seguir, ele, além de me fazer ficar indignado com a mãe da criança, colocou-me diante de mim mesmo, e me fez rever, em minhas memórias afetivas, que esconderijos utilizei para alimentar e guardar os meus sonhos e formatar a minha individualidade, longe dos olhares inquisitivos dos adultos. Lembrei de alguns. Foi muito bom.

Gilvan Almeida

O espaço secreto
Rubem Alves

Toda criança sonha com um espaço secreto, que seja só seu, longe do olhar controlador do pai e da mãe. Já contei sobre a menina que encontrou esse espaço debaixo de um taco solto do assoalho. Debaixo daquele taco – o único lugar que era só seu, em sua casa – ela sonhava guardar pedrinhas coloridas, seu tesouro. O importante não era o valor do tesouro. O importante era que aquele espaço era secreto. Nem seu pai e nem a sua mãe sabiam da sua existência. Só ela. Também a casa de madeira, no alto de uma árvore. Lá os adultos não podem chegar. Ou aquele livrinho chamado Diário...
Uma terapeuta contou-me de um paciente seu, um menino esquizofrênico. Ele tinha uma caixa onde guardava os seus tesouros. Numa sessão de terapia ele e ela fizeram um jogo num papel. Ele achou o jogo maravilhoso. Guardou-o no seu cofre. Na sessão seguinte ela lhe perguntou sobre o jogo. Ele respondeu: “Jogou fora” e não soube dar maiores explicações. Como ele só falasse na terceira pessoa, ela entendeu o “Jogou fora” como “Joguei fora”.
Conversando com a mãe do menino ela perguntou: “O que o Joãozinho (nome falso) fez com o jogo que fizemos?” Ela queria compreender as razões do comportamento do menino. A mãe não entendeu. A terapeuta explicou: “Ele havia guardado o jogo naquela caixa...” “Ah!”, sorriu a mãe, “aquela caixa de tranqueiras bobas e sujas? Limpei a caixa. Joguei tudo fora...”
Pobre mãe! Ela não sabia que havia jogado fora pedaços preciosos da alma do seu filho. Isso não é só bobeira de criança. A psicanálise descobriu que todos nós temos um espaço secreto onde guardamos coisas que nos são preciosas. Guardamos o dito espaço a sete chaves porque sabemos que, se os outros virem o que está lá dentro, eles vão dizer como a mãe insensível: “Tranqueiras...”
Talvez a nossa alma seja feita de tranqueiras que nos são preciosas. Na psicanálise esse lugar secreto tem o nome de inconsciente.

Fonte: http://www.rubemalves.com.br/quartodebadulaquesXXVIII.htm

2 comentários:

Isaac Melo disse...

Salve Gilvan,
de fato Rubem Alves é um escritor primoroso, gosto bastante também, pois ele escreve como você diz com "cabeça e coração". E esse texto nos trás boas recordações.

Um forte abraço acreano ilustre!

Faide disse...

Gilvan,
É mesmo muito bom lembrar de momentos e coisas que nos são individuais, como "nosso lugar secreto" e o que expressamos com ele. E esse desejo de tê-lo é essencial e de suma importância para todos,porque é em nosso "lugar seceto" que os sentimentos de prazer tocam nosso coração.
Infelizmente, por motivos equivocados essas "tranqueiras da alma" tão preciosas ao ser humano desde a infância, não podem ser entendidas por pessoas que se comportam como se tudo pudesse ser compensado de forma não afetiva, esquecendo que a afetividade, a internalização de valores e o respeito a construção da identidade são a base de seu crescimento e entendimento do mundo em que vive.


saudações 2010...
Faide